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Manipulação Maciça
Publicado na Visão em 12 de
Fevereiro de 2004 |
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O relatório de Lord Hutton, exonerando o Governo de
Tony Blair de qualquer manipulação dos dados dos serviços
secretos para justificar a invasão do Iraque, e as comissões
de inquérito que acabam de ser criadas nos EUA e na Inglaterra
para averiguar se os serviços secretos induziram em erro os
governos destes países na opção pela guerra,
são reveladores dos riscos que corre a democracia nestas duas
grandes pátrias da democracia e, por implicação,
no resto do mundo, dado o impacto do unilateralismo dos EUA nas relações
internacionais pós-11 de Setembro. Nunca, em democracia, a
aparência se pretendeu sobrepor tanto à realidade e nunca
a disfarçou tão mal. Nunca os interesses de sectores
restritos encastrados no poder se impuseram de modo tão ignóbil
aos interesses das maiorias dos seus países e das dos países
que transformaram em alvos. Nunca tal imposição se serviu
tanto da grande comunicação social para transformar
a voracidade dos poderosos em desígnios nacionais e missões
civilizatórias. Nunca a grande comunicação social
traiu com tanto despudor o ideal republicano da opinião pública,
assente no acesso livre à informação diversificada
e no debate racional sobre ela. Nunca, finalmente, tudo isto foi (e
continua a ser) feito em democracia com tanta impunidade, com os governantes
a saírem ilesos dos desastres que provocaram, e os jornalistas
e comentadores a serem confirmados por sobre o magma das contradições
dos seus editoriais e comentários.
À data da invasão do Iraque, em 20 de Março de
2003, sabia-se o seguinte. Mais de dez anos de embargo incapacitaram
o Iraque para a produção de armas de destruição
maciça. Nestas há que distinguir entre armas nucleares
e armas químicas e biológicas. As primeiras são
de fabricação complexa e o Iraque só as poderia
obter por compra, por exemplo, à Rússia, uma hipótese
altamente improvável. As segundas são feitas com materiais
acessíveis e virtualmente todos os países as podem produzir,
pelo que não é aceitável invadir qualquer país
que as tenha, até porque a invasão pode desencadear
o seu uso. Os serviços secretos dos EUA e da Inglaterra, em
sucessivos relatórios, levantaram dúvidas à ideia
de "ameaça iminente". Em face disso, os neoconservadores
instalados no Pentágono criaram uma estrutura paralela, o Office
of Special Plans, para fazer curto-circuito das verificações
normais da informação e dar credibilidade a fontes,
em geral, desacreditadas (os exilados do Iraque). Ainda no tempo de
Clinton esses mesmos conservadores tinham enviado um relatório
ao Presidente recomendando a invasão do Iraque para fortalecer
o controle dos EUA numa área problemática e garantir
o acesso à segunda maior reserva de petróleo do mundo
(podendo assim desarticular a OPEP), sem que as armas de destruição
maciça (ADM) tivessem alguma importância nesse plano.
Logo que a guerra "terminou", mostrou-se que eram falsas
as provas da presença de ADM apresentadas na ONU por Colin
Powel em 5 de Fevereiro de 2003. Por outro lado, a desclassificação,
depois da guerra, do documento apresentado pelo Director da CIA para
justificar a invasão do Iraque revelou que o documento continha
40 cláusulas de reserva, incluindo 15 vezes o uso do advérbio
"provavelmente", que foram eliminados da versão anteriormente
publicada. A invasão do Iraque foi, pois, um objectivo premeditado,
que apenas recorreu a uma justificação falsa por não
poder usar a verdadeira. Não houve engano. Ou melhor, não
foram os governantes que foram enganados pelos serviços secretos,
foram os cidadãos que foram enganados pelos governantes. No
solo estão milhares de mortos, na grande maioria civis inocentes,
um país destruído à mercê dos fanáticos,
e um precioso património cultural da humanidade pilhado ou
reduzido a cacos. As armas de manipulação maciça
utilizadas nesta operação macabra são a grande
ameaça à paz e à democracia nos tempos mais próximos. |
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