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Comunidade Multicultural
Publicado na Visão em 25 de Março de 2004 |
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De 10 a 12 de Março realizou-se em Salvador,
Bahia, o seminário internacional Cultura e Desenvolvimento,
organizado pelo Ministério da Cultura do Brasil. O seminário
reuniu mais de 150 artistas, intelectuais, produtores e gestores culturais
de quase todos os países de da Comunidade dos Países
de Língua Portuguesa (CPLP). Digo quase porque Portugal esteve
ausente deste seminário (eu participei a convite do Ministro
Gilberto Gil e o Hélder Costa participou porque estava por
coincidência no Brasil). O Ministério da Cultura português
decidiu não se envolver activamente nesta reunião, fazendo-se
representar por uma funcionária de segundo ou terceiro escalão,
que cumpriu à risca a missão de que foi incumbida: estar
sem estar. Esta decisão causou a maior perplexidade (e, muitas
vezes, genuíno desgosto) entre os participantes, que não
compreenderam que Portugal se alheasse de uma reunião cujo
objectivo expresso era preparar a terceira reunião dos Ministros
da Cultura da CPLP, que se realiza no Maputo em Abril. Para mim, ela
não é apenas mais uma prova de quanto à deriva
está a nossa política cultural. É, além
disso, reveladora de equívocos profundos no modo como as elites
políticas concebem a identidade do país, equívocos
que paralisam o nosso potencial para uma presença criativa
na cena internacional. Dois desses equívocos são particularmente
patentes.
A importância deste seminário residiu em que pela primeira
vez na história apagada da CPLP se procurou passar das palavras
aos actos, preparando, em parceria com os agentes culturais, uma agenda
comum de políticas públicas que dê substância
e propósito à reunião dos responsáveis
políticos. O objectivo foi plenamente atingido, traduzido num
conjunto impressionante de propostas em áreas tão diversas
quanto a educação, a economia da cultura, as linguagens
culturais, a memória, os media, a informação
e a gestão da cultura. Graças a este trabalho, a reunião
do Maputo será certamente diferente das anteriores. Acontece
que a ideia da preparação da agenda comum foi do Ministro
Gil e aqui reside o primeiro equívoco identitário. É
que Portugal, apesar de ser um país de desenvolvimento intermédio,
sem condições económicas e políticas para
ser o centro real da CPLP, imagina-se como centro - país europeu
e ex-potência colonial - que não aceita partilhar a hegemonia
com o outro país de desenvolvimento intermédio da comunidade,
o Brasil, um país do Terceiro Mundo. É esta a psicologia
profunda das ausências incompreensíveis.
O segundo equívoco liga a reunião de Salvador à
tragédia de Madrid e reside em supor que a nossa identidade
enquanto país europeu exige que descartemos tudo o que na nossa
história confere especificidade à nossa existência
europeia. É como se tudo o que nos é específico,
em vez de potencial, fosse fardo. Este equívoco impede-nos
de valorizar uma longa experiência histórica de contactos
entre culturas, que nenhum outro país europeu tem, uma história
feita de violência colonial, mas também de diálogo
e de mestiçagem e, nos melhores momentos, de convivência
em respeito mútuo. Findo o colonialismo, essa história
é hoje reinventada e protagonizada pelos diferentes países
da CPLP. Por exemplo, Moçambique é talvez o país
que melhor simboliza as possibilidades de diálogo e convivência
com a cultura islâmica. A voz de Portugal na Europa no que respeita
à luta contra o terrorismo e ao isolamento do fundamentalismo
devia estar marcada por este património cultural único.
É por isso que nos choca tão profundamente a arrogância
e a virulência com que os comentadores e editorialistas conservadores
investem em nome da civilização contra a barbárie,
apesar de os factos irem desdizendo tudo o que prevêem e tornarem
cada vez mais perigoso tudo o que defendem. |
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