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Boaventura de Sousa Santos


     
 
Manuel Alegre
Publicado na Visão em 12 de Agosto de 2004
 

A candidatura de Manuel Alegre a secretário-geral do PS é, ao contrário da dos seus rivais, um acontecimento político. A candidatura de José Sócrates é um acontecimento burocrático, o aparelho partidário a procurar sobreviver da única maneira que conhece: através de quem lhe assegura a continuidade. A candidatura de João Soares é um acontecimento pessoal, uma inconformidade quixotesca contra a fatalidade de o pai o ter precedido. É certo que há Bush 1 e Bush 2, mas isso é nos EUA onde, como diz Gore Vidal, em vez de democracia, há uma república dominada pelo dinheiro. A candidatura de Manuel Alegre é um acontecimento político porque lhe preside uma intenção política, a de virar o PS à esquerda, e um projecto político, o de, conjuntamente com outras forças de esquerda, oferecer ao país a alternativa de que carece para garantir o seu florescimento numa UE crescentemente exigente e competitiva.
Esta intenção e este projecto implicam uma reinvenção do PS. As vicissitudes do 25 de Abril dispensaram o PS de formular um projecto de esquerda. Protagonista, em 1975, da luta contra a aventura autoritária do PCP, o PS bastou-se com um projecto de democracia para o país, o que não foi pouco no contexto em que então se vivia. Durante alguns anos este projecto confundiu-se com um projecto de esquerda democrática, por falta de uma alternativa PCP e pela confusão ideológica da própria direita. Em meados de 80, a direita assumiu o seu papel e, a partir daí, o PS passou a estar à esquerda da direita sem ter de ser necessariamente de esquerda. Foi então que da alternativa (que verdadeiramente nunca existiu) se passou à alternância, uma passagem que o Governo Guterres assumiu por inteiro, tal como o faria um eventual governo de José Sócrates. Porém, esta passagem nunca foi totalmente assumida no seio do PS, já que alguns sectores continuaram a ver nela, não a garantia da sobrevivência do PS, mas antes o perigo da extinção deste. A credibilidade desta suposição aumentou recentemente quando um PS atónito verificou que, pela primeira vez em 30 anos, não tinha um amigo na presidência da república e que, portanto, a hegemonia da direita poderá estar de tal modo implantada que dispense a alternância. É desta convicção que parte a candidatura de Manuel Alegre.
São duas as razões principais que podem levar o PS a perder o jogo da alternância. A primeira é que a direita portuguesa tem uma longa experiência histórica, não é burra e, em sua fase democrática, vem construindo há 20 anos um projecto de governabilidade que só ela sabe manejar com competência. A segunda razão é que este projecto – incapaz de se libertar inteiramente do fantasma de Salazar – garante a sobrevivência medíocre de Portugal na UE mas torna impossível o seu florescimento num contexto exigente e moderno. Os Portugueses não estão conformados com esse destino e, como a alternância se dá no seio dele, buscam não a alternância, mas a alternativa. Essa alternativa é, por enquanto, embriónica mas está a ser construída, fora do PS, a dois níveis. Por um lado, com a emergência do Bloco de Esquerda e o seu êxito eleitoral. Por outro lado, com a renovação por que está a passar, a nível local, um PCP, aparentemente estagnado a nível nacional. Algumas das experiências da democracia participativa mais consistentes ocorrem em autarquias comunistas, e é aí que se pode estar a forjar uma nova cidadania inconformada com a mediocridade e a corrupção. Tendo a intuição que o jogo de alternância pode estar perdido, Manuel Alegre aposta na alternativa, esperando que não seja tarde de mais. Não o é certamente para o país, mas sê-lo-á para o PS?

 
 
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