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Autarcas não gostam nada da participação
Campeão das Províncias, 01 de Fevereiro de 2007 |
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| http://www.campeaoprovincias.com/noticias.asp?id=6494 |
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Paula Alexandra Almeida
Muita coisa anunciada e muito pouca coisa concretizada. Assim resume Fernando Ruivo o estado actual do Poder Local português, 30 anos depois. Em entrevista ao CAMPEÃO, o sociólogo defende uma lei das Finanças Locais paraconstitucional, lamenta o sistema enraizado da pedinchice e acredita que a evolução para a descentralização de poderes só é possível com mais recursos humanos especializados e mais recursos financeiros.
Campeão das Províncias (CP) – O Governo afirma que a nova lei das Finanças Locais preconiza o Reforço da Autonomia Local, alargando os poderes próprios dos municípios e das freguesias e criando as condições para a execução de um programa de descentralização de competências. Concorda?
Fernando Ruivo (FR) – Até que ponto é que esse discurso não irá colidir com a lei do Orçamento de Estado (OE)? O ridículo desta questão, é que enquanto a lei das Finanças Locais não for uma lei reforçada, ou paraconstitucional, poderá sempre ser colocada entre parêntesis na negociação do OE, que é o que se tem passado nos últimos anos. Diz-se ‘ai Jesus, que eles são despesistas’ e arruma-se com o défice — que é culpa de todo o país — para cima da classe política local, que é quem faz as obras necessárias. Se a lei das Finanças Locais fosse paraconstitucional ressalvaria, no fundo, a sua posição, que está sob a alçada do Ministério das Finanças. Eu propus isso em 1995 quando fui encarregado pela Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) para elaborar o estudo preparatório para a revisão da lei, mas não me deram atenção. E o problema continua a ser o mesmo. E é engraçado recordar que o 25 de Abril foi em 1974, as primeiras eleições foram em 1976 e a lei das Finanças Locais só surgiu em 1979.
CP – O que é que isso significa?
FR – Para já que depois da sua aprovação pelo Parlamento se tentou negociar com os partidos a sua não aplicação, quando essa primeira lei era a grande condição para haver visibilidade sobre receitas e despesas e, devido aos seus critérios objectivos, obviamente, não haveria lugar para clientelas. A realidade veio revelar-se um pouco diferente porque, não só a lei das Finanças Locais foi posta entre parêntesis por alguns governos, como, e isto é que é ridículo, se manteve como pano de fundo de financiamento paralelo das autarquias as chamadas comparticipações em obra, que eram proibidas por lei no 25 de Abril, e que eram a ideologia das Finanças Locais até aí. E esta ideologia da comparticipação em obra e da pedinchice, mantém-se.
CP – E acha que se vai manter com a nova lei?
FR – Penso que sim. A não ser que houvesse alteração das classes políticas, tanto nacional como local. Infelizmente não houve ainda alteração das mentalidades e, portanto, não há uma lei que vença esta ideologia de fundo que domina o sistema político português.
CP – O ministro afirmou ainda que esta nova lei oferece a garantia de uma maior coesão territorial e solidariedade, entre o Estado e as autarquias, entre os próprios municípios e entre estes e as freguesias. É verdade?
FR – Há sempre essa hipótese. Nós temos leis belíssimas. O nosso sistema jurídico é extremamente moderno. Só que, enquanto observador do terreno, sei que as leis muitas vezes não são aplicadas. Tem havido vários volte-faces no país relativamente ao enquadramento jurídico do Poder Local. Por exemplo, em 1999 uma lei transferia imensas competências para os municípios. Essa lei não foi regulamentada. A reforma administrativa de 2003, que foi tão badalada, fundou as comunidades urbanas, as áreas metropolitanas, as associações de municípios, e que se pensaria que iria ser a capa de fundo da descentralização... estamos em 2007, já a viu funcionar? Não. Sabe-se agora que há novas ideias na gaveta, mas o meu medo é que essas ideias não sejam regulamentadas como tem sido regra nestes 30 anos. Temos tido ideias belíssimas mas depois as coisas não funcionaram, até porque não há continuidade. Os governos podem ser substituídos, os autarcas também, mas devia haver uma ideia consensual sobre as políticas públicas e formas de as concretizar, e sobre o maior peso dos técnicos. Não! Basta mudar uma pessoa do ministério para mudarem as ideias sobre as políticas. Isso é uma coisa que é preciso mudar, a priori, em termos de mentalidade porque assim o país não anda.
CP – Uma das questões levantadas pela ANMP em relação à nova lei prende-se com os princípios de autonomia — a ANMP chegou, inclusive, a pedir um parecer ao Conselho da Europa. Acha que a nova lei das Finanças Locais cumpre os princípios de autonomia do Poder Local?
FR – Eles pediram um parecer e o Governo brindou-os logo com cinco pareceres muito interessantes, que até podem estar muito bem feitos. Mas o Tribunal Constitucional aprovou a possibilidade dessa lei existir com base em antecedentes. Ou seja, a questão do IRS, por exemplo, já existia nas Regiões Autónomas e, portanto, não viram nenhuma razão para que não pudesse ser aplicada no continente. Mas parece-me um pouco problemática em termos jurídicos porque se trata de um imposto universal. Acho muito bem que as autarquias disponham de mais dinheiro porque precisam de investir, mas podem dispor de verbas até 5% de um imposto que é nacional? Podem diminuir aqui e aumentar acolá?
CP – Essa é outra das dúvidas acerca da constitucionalidade da nova lei, a possibilidade de os municípios decidirem reduzir até 3% o IRS cobrado aos munícipes, quebrando o princípio da universalidade do imposto.
FR – Até podem decidir que os munícipes devem continuar a pagar e arrecadar o dinheiro para investimento, desde que seja o investimento correcto. Não estou contra. Agora, que as pessoas possam pagar menos, não estou de acordo.
CP – No Congresso da ANMP, em Dezembro, o Governo entregou à associação um documento onde propõe, entre outros, fazer uma descentralização para os municípios de poderes que estão agora na administração central — nas áreas da educação, saúde e acção social —, com as respectivos fundos e com efeitos já a partir do OE de 2008. Acha que os municípios estão preparados para isso?
FR – Não!
CP – O que é que falta?
FR – Faltam duas coisas fundamentais. Primeiro, mais recursos humanos especializados — e, nesse aspecto, devo dizer que os municípios melhoraram imenso. Mas não chega, porque são áreas muito delicadas, que exigem grandes investimentos e, daí, o segundo item: recursos financeiros. Será cortando nas transferências que os municípios vão poder investir? Será que a maior parte dos 308 autarcas portugueses tem a cultura técnica necessária para levar a cabo isso, sem estarem suficientemente amparados por técnicos de alto gabarito? Porque esse é um dos problemas do país: o político não liga ao técnico ou quer o técnico apenas para pareceres a reboque de decisões políticas.
CP – Defende então que as autarquias sejam geridas como uma empresa?
FR – Não necessariamente como uma empresa. Serviço público é serviço público. Tem é que ter cabeça, tronco e membros, com técnicos reputados, legitimados e não a reboque de uma qualquer decisão política. Eu conheço municípios que, antes de serem criadas as redes sociais, já tratavam destas áreas. Mesmo municípios que nem tinham grandes problemas de exclusão social. Outros, com grandes problemas, metiam a cabeça na areia e não queriam saber porque não estava na lei. Isto depende muito dos políticos, das equipes dos executivos, das culturas políticas locais que se geram, da capacidade de participação dos cidadãos, de um leque de factores que ponham as coisas a funcionar efectivamente. Mas só com preparação técnica e profissional e dotação financeira é que se podem transferir eficazmente determinadas competências. E repare que eu conheço bem o poder local europeu e vejo como é que as coisas funcionam noutros países. Na Dinamarca, onde também trabalho, a maioria da função pública é recrutada em termos locais. A maior parte da despesa pública é efectuada a nível local. Existe toda uma cultura de execução e toda uma responsabilização que nós, infelizmente, e apesar de 32 anos de democracia, ainda não adquirimos.
CP – Nesse caso, concorda com o ministro António Costa quando ele diz que essa proposta é o ‘maior desafio descentralizador’ lançado em 30 anos de Poder Local democrático?
FR – Já não é a primeira vez que se tenta fazer isto. Em 1999 tentou-se e ficou tudo por ali. É um grande desafio. E eu estou de acordo com este tipo de desafios porque segundo o princípio da subsidiariedade, as autoridades que estão mais próximas dos problemas são as mais aptas para resolvê-los. Portanto, estou de acordo com essas intenções. Só que espero para ver.
CP – Segundo o presidente da ANMP, Fernando Ruas, há 30 anos os portugueses viviam numa apagada atitude de não participação cívica no seu destino colectivo, mas hoje já têm todas as instituições para a sua realização individual em favor da comunidade. Concorda?
FR – Não! Discursivamente é muito bonito, mas, como todos os outros políticos portugueses, os autarcas, salvo honrosas excepções, não gostam nada da participação. Os autarcas não gostam que as pessoas façam manifestações. Não gostam que as pessoas recorram aos jornais — ai dos jornais que publiquem determinadas coisas, que logo perdem subsídios. Não gostam que se mexa publicamente com os problemas. Os autarcas estão muitas vezes rodeados por um círculo íntimo e gostam de ser abordados privadamente. Se é essa a participação de que está a falar, ela existe muito fortemente no nosso país — a participação privada em termos de conhecimentos. Mas era bom que se pusessem os poucos mecanismos que são contemplados nas leis a funcionar. Basta analisar o recurso às novas tecnologias: a maior parte dos municípios ainda não têm sítios na internet, e se têm, a maioria são meramente informativos. Democracia digital é muito bonita mas não existe. Não há ainda uma comunicação electrónica entre o poder político local e os cidadãos. Está tudo por implementar.
CP – A propósito dessa relação, muitas vezes dúbia, entre público e privado, Fernando Ruas considerou recentemente que a imagem dos autarcas foi afectada ‘pela meia dúzia de casos’, alguns ligados a corrupção, que estão sob investigação judicial e que ainda não foram punidos, diga-se. Acha que os portugueses ainda não conseguem distinguir os bons dos maus autarcas?
FR – Estou de acordo com o Fernando Ruas. Antes de responder à pergunta, deixe-me lembrar que desde há muitos anos que estamos sujeitos a uma campanha por parte dos meios de comunicação social centralizados e que provocam rumores na sociedade sobre o autarca que é burlão. Isso é uma mensagem que tem passado um pouco entre a população e que começou muito próximo do primeiro referendo sobre a regionalização. É muito engraçado e colou bem nos temores dos portugueses. São meia dúzia de autarcas que efectivamente foram julgados e apenas um, o da Guarda, foi condenado. O que efectivamente devia preocupar os portugueses é que, quanto aos outros, não se vê os processos andar. É que não é só o descrédito das autarquias e da política, é também o descrédito da Justiça. Por outro lado, os dados da Polícia Judiciária indicam que 42,3% das investigações sobre corrupção andam à volta dos poderes locais, mas isto não quer dizer que sejam os autarcas. Quer dizer, isso sim, que há todo um universo à volta dos poderes locais que movimenta financiamentos, que movimenta interesses e que está sob investigação. E os números são muito altos. Não têm produzido praticamente nada mas são fumos... e as pessoas estão habituadas a ouvir dizer que ‘onde há fumo, há fogo’. O Poder Local já não está em estado de graça, embora nós lhe demos imenso e precisemos que ele funcione bem e avance, adquira competências. Grande parte da evolução do país nestes 30 anos deve-se ao trabalho do Poder Local.
CP – Portanto, concorda com o Presidente da República ao afirmar que ‘quando comparamos o Portugal que existia há 30 anos e o Portugal que hoje somos, o saldo é claramente favorável’?
FR – Sem dúvida. A situação material dos concelhos em 1974, em termos de infraestruturas, era altamente preocupante e há estudos anteriores ao 25 de Abril que o demonstram. O Poder Local teve que fazer um investimento louco para colmatar essas deficiências. E fê-lo. Agora é preciso dar o salto para outras coisas. Planos estratégicos, cultura, educação, saúde, fixação de população e muito mais coisas. É este o desafio que se coloca e isso passa também pela alteração da mentalidade do político local e pela renovação da classe política. Nós não vemos renovação nos políticos locais, pelo contrário. Vemos políticos profissionais, o que é gravíssimo. E vemos falta de formação.
Perfil
Quem é...
Fernando Ruivo é professor da Faculdade de Economia desde a sua fundação. Licenciado em Direito e doutorado em Sociologia tem vindo a dedicar a sua investigação ao Poder Local e território, e à ciência política de uma forma geral. Os anos de estudo levaram a uma desilusão em relação ao sistema português. Foi professor visitante na Escola de Negócios de Copenhaga, Dinamarca, e é professor visitante no Instituto Superior de Estudos Políticos de Bordéus, França, onde lecciona num mestrado. É fundador e coordenador do Observatório dos Poderes Locais, a funcionar no âmbito do Centro de Estudos Sociais.
E ainda...
"As freguesias têm um papel muito importante a desempenhar porque são elas a autoridade mais próxima das populações. E este nível intermédio é muito importante. No estrangeiro, por exemplo, estes níveis não existiam e estão a ser criados para haver diálogo. E é muito importante a alteração da nova lei que prevê transferências directas do poder central para as autarquias, sem passar pelos municípios".
"Ao nível das freguesias a classe política mudou, renovou-se. Hoje há gente muito boa a trabalhar nas freguesias e é um trabalho que não é visível. É preciso apoiá-los e pensar muito bem na reforma que também está na gaveta e está a ser pensada. Mas cuidado ao mexer nas freguesias rurais. Porque se elas estão em perda de identidade e de população, se se lhes tira a instância simbólica do político, é dar cabo delas".
"O novo critério de transferência financeira das autarquias baseado nas pessoas é uma alteração muito importante. As pessoas são o centro da atenção dos políticos, portanto é bom que se introduzam critérios alternativos de financiamento".
"O que é importante é que se comece a pôr o Poder Local a mexer, porque estava muito dependente de determinados impostos, como a sisa, por exemplo, e isso levou à descaracterização das nossas cidades. Porque para obterem verbas complementares aquelas que eram transferidas através da lei das Finanças Locais, tinham que deixar construir. E, depois, boa parte do território está nas mãos do poder central, por isso as cidades crescem em altura selvaticamente".
"As grandes áreas metropolitanas têm que ser postas a funcionar. Tenho conhecimento de que há ideias interessantes, como promover não só a regionalização, mas também níveis intermédios sub-regionais que passam pelas NUT III".
"Sou adepto ferrenho da regionalização, até porque a vejo a funcionar lá fora. Embora se estivesse cá, quando foi o último referendo, não tivesse votado aquele mapa. Foi uma asneira da pior espécie e que lançou o referendo na mão dos que não acreditavam na regionalização e daí o resultado. Não se pode dividir o país ao meio. Tem que se aproveitar toda experiência que já vem de 1972 das então comissões de planeamento e das regiões administrativas que são Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve".
"As regiões Norte e Centro eram um alfobre de desenvolvimentistas, de gente que acreditava que se podia andar para a frente, que se podia desenvolver, ter melhor qualidade de vida e afirmar os territórios à escala nacional e à escala europeia".
"A escala europeia existe porque existem os fundos. O número de municípios portugueses que criou gabinetes de relações internacionais depois da integração europeia foi ínfimo — 15 em 308. Isto significa que os municípios portugueses não pensaram a construção europeia. Pensaram sim foi em aproveitar os fundos comunitários, aos quais não têm sequer acesso directo porque não existem regiões".
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O coordenador do Observatório do Poder Local comunga da ideia de que «os partidos funcionam com incompetentes», acrescentando que, «a nível local, são praticamente inexistentes». Só que «a democracia não se esgota nos partidos» e este é o momento para trabalhar a mudança. «Não podemos mantermo-nos no paradigma de Oeiras, Felgueiras ou Gondomar». Fernando Ruivo preconiza a necessidade de «darmos um salto», numa altura em que já «são precisas lições bem sérias para os portugueses voltarem a acreditar». É preciso terminar com as suspeitas sobre «relações íntimas entre futebol, construção civil e poder local»
DC Os investigadores declararam existir um grande volume de trabalho com questões de corrupção nas autarquias...
FR Sim, os números apontam para 42% dos processos, mas atenção, não são necessariamente relativamente aos políticos locais, podem ser estruturas burocráticas, administrativas camarárias.
DC Como se explica esse volume de corrupção nas autarquias?
FR São questões inerentes ao funcionamento da própria administração local, por vezes são funcionários, agentes que se deixam corromper, nomeadamente pelas ligações entre construção civil e futebol, que envolvem muitas verbas e corrompem.
DC Não são só casos de funcionários, há outros que envolvem autarcas eleitos...
FR Sim, mas temos 308 câmaras em Portugal e tivemos o conhecido caso da Guarda, já lá vai, e agora o caso de Felgueiras, de Gondomar, de Oeiras e Marco de Canaveses, que marcaram a comunicação social durante as eleições e, obviamente, desvirtuam as potencialidades do poder local, mas são cinco, seis, os presidentes visados.
DC A estes casos, juntam-se outras suspeitas e quase sempre com uma relação muito próxima entre futebol, construção civil e poder local. Esta é uma trilogia que existe, não é fantasia?
FR Não, esta relação muito íntima existe e pode gerar efeitos muito perversos, incalculáveis e incontroláveis. É evidente que haverá gente muito honesta e muito séria, mas quem está ligado a estas questões, ao dinheiro que tudo isto movimenta, corre o risco de se tentar. Até porque, até agora, tem sido muito fácil. Por isso, os portugueses sentem um grande descrédito do sistema político geral e também quanto ao poder local, era preciso algumas lições bem sérias para os portugueses voltarem a acreditar.
DC Que tipo de lições?
FR Os processos serem levados até ao fim, não é por acaso que um ex-vereador da Câmara do Porto disse há uns tempos aos jornais que tinham tentado corrompê-lo, mas não aconteceu nada, é espantoso. Os sistemas jurídico e judicial português têm que começar a mexer nessas coisas, porque o empolamento dos rumores por parte da comunicação social está a levar a um descrédito da política e dos políticos em geral.
DC Os políticos não são intocáveis?
FR Eles não podem ser intocáveis.
DC Mas a ideia que se transmite não é essa, pois não?
FR A ideia que se transmite é que são intocáveis, apesar destes casos recentes de Felgueiras, Gondomar ou de Oeiras, poderem ser casos exemplares, mas as pessoas comportam-se como se não fosse nada com elas. O caso de Felgueiras voltou, praticamente à estaca zero.
DC Felgueiras é um caso muito paradigmático, até porque apesar de todas as suspeitas, a senhora foi recebida em apoteose. Essa é uma realidade para o poder local e justificada como? Com a mentalidade de um povo?
FR Isso é normal e uma realidade no poder local. Tem a ver com a mentalidade dos portugueses que são pessoas que se querem safar e não acreditam em nada, e portanto “ele” até pode ser corrupto, mas é o “meu” corrupto ou o “nosso” corrupto. O caso de Felgueiras foi paradigmático, com tudo preparado ao milímetro. No dia seguinte já havia outdors preparados, tudo estava combinado com as autoridades como ia ser, e quem viu a chegada de Fátima Felgueiras apercebeu-se que estavam presentes as mulheres da terra, que arrastavam os maridos. Isto porque, em Portugal, existem processos subterrâneos muito importantes e que ainda não estão suficientemente estudados, como o culto Mariano, que está extremamente difundido na sociedade portuguesa e consiste na crença de que só as mulheres podem ajudar as mulheres. Atenção, isto está profundamente instalado na mentalidade das mulheres em geral, não só a nível rural, a nível urbano também. Só as mulheres podem ajudar as mulheres e portanto Fátima Felgueiras aparece como a salvadora, é a pessoa a quem recorrem quando têm um problema e ela não está em Lisboa, vive em Felgueiras e, repare--se, chama-se Fátima Felgueiras, curioso não é...
DC Até quando este perfil de políticos vai vingar em Portugal?
FR Eu penso que tendem a acabar. Na realidade quando há uma mudança de política muito forte, as pessoas não têm ainda legitimidade e portanto procuram criar outro tipo de legitimidade mais subjectiva, são, no fundo, relações pessoais, fidelidades pessoais que movem e muito a política local e a política em geral em Portugal. Neste momento, relativamente à política nacional, o que interessa é arranjar um candidato credível e projectá-lo nos media. Digamos que “é aquele que nos vai resolver a situação do país, acabar com o déficit, governar-nos bem, criar um futuro mais risonho” e isso passa muito pela imagem da pessoa e não por um programa político. As Presidenciais foram muito claras nesse aspecto e a vitória de Cavaco Silva foi sintomática, embora não tão forte como se podia pensar.
DC Não é um risco sério pensar em regionalização quando temos políticos locais com este perfil, não é arriscado?
FR Esse é um dos argumentos que leva muita gente a recusar a regionalização; é o argumento que consegue passar desde o referendo, pensar que vamos criar mais classe política deste género.
DC Acredita que isso pode acontecer?
FR Corremos esse risco, sem dúvida, mas se trabalharmos bem e se o sistema político se modificar, porque obviamente tem que se modificar, podemos ter outro tipo de classe política. Eu também trabalho em França e conheço bem o sudoeste francês, onde fiz uma conferência em Toulouse e expus a situação dos poderes locais em Portugal; eles só me disseram que há 20, 30 anos também eram assim, iguais a nós.
DC É mais um atraso que temos?
FR - É um atraso muito forte, porque no resto dos países europeus temos um sistema que já não é propriamente governo, é governança, em que se reúnem os interessados, os grandes actores locais à volta de uma mesa. Repare, se Toulouse conseguiu o fabrico do avião A 380, foi toda uma rede extensa que trabalhou em prol da região, nós ainda não chegamos a este nível, com uma rede extensa pública, clara e transparente, como há no sistema de governança. Aqui, ainda é uma rede privada, oficiosa, muito informal, que pode captar determinados recursos públicos da área privada. Estamos a necessitar de dar um salto, não sei se temos condições para o dar rapidamente, mas esse salto terá de ser dado e isso passa por revalorizar os poderes locais e regionais, passa por vigiarmos o funcionamento dos poderes locais. Não podemos mantermo-nos no paradigma de Oeiras, Gondomar, Felgueiras ou Marco de Canaveses.
DC E os partidos também têm que mudar?
FR E muito, porque os partidos neste momento, como dizia o Pacheco Pereira, funcionam com incompetentes.
DC Principalmente a nível local ?
FR Também a nível nacional. Ninguém quer ir para a política neste momento e a nível local os partidos são inexistentes, embora Coimbra seja um sintoma de falta de competência local, obviamente. A nível local, os partidos são praticamente inexistentes, veja-se que, na maior parte das cidades portuguesas, as sedes dos partidos estão fechadas fora do período eleitoral, não há debate, é uma rede muito fechada, muito densa, é o chamado circulo íntimo que controla os partidos políticos e as próprias eleições dentro dos partidos e isso tem de mudar. É preciso que haja uma articulação entre políticos e movimentos sociais. A democracia não se esgota com os partidos, esgota-se sim com o funcionamento de todos os actores que são capazes de actuar a nível local.
DC Como interpreta o efeito Manuel Alegre, insere-se no início dessa mudança que preconiza, ou teve apenas um efeito de vingança?
FR Foi o voto do protesto. As pessoas não se reconheceram nos aparelhos partidários e Manuel Alegre recolheu votos de pessoas oriundas de vários partidos. Foi um voto, não para uma vitória clara, apesar de não ter ficado longe, mas um voto de aviso, um sinal vermelho aos aparelhos partidários, que continuam fechados sobre si próprios.
DC Em função desses sinais, os partidos já começaram a mudar?
FR Penso que não. Os actores são os mesmos e aos novos que entram não se vêem competências. Temos que trabalhar para salvaguardar a democracia.
DC Ainda vota?
FR Claro. Às vezes engulo sapos.
DC Para a maior parte dos portugueses, a forma que têm de rejeitar o caminho apontado é não votarem, é por isso que está a aumentar a abstenção?
FR Sim, mas ainda não atingimos os índices europeus e norte-americanos, felizmente.
DC Porque a nossa democracia é mais recente?
FR Sim, mas caminha a passos largos para uma certa velhice. É claro, para mim, que o protesto da maior parte dos portugueses é não votarem. As pessoas sentem-se muito longe do poder, pensam que não influenciam a política votando num ou noutro candidato, e por isso a tendência para a abstenção é de subida. As pessoas não têm a noção de que são capazes de influenciar a política do governo.
DC Que recado ou que conselho é que poderia dar aos políticos locais?
FR Abrirem-se aos interesses das populações, fomentarem a participação, coisa que não fazem. Eles detestam que se publiquem artigos em jornais, que se façam abaixo-assinados, manifestações, preferem, quando há algum problema, tentar resolver o assunto em privado, não gostam de ser postos em causa, de modo algum.
DC Estamos numa encruzilhada, ou mudamos ou ficamos pior?
FR Ou mudamos e transformamos um pouco mais o país para bem ou então ficamos na cepa torta, não adquirimos o mínimo de velocidade europeia, basta ver que os nossos autarcas só estão interessados nos fundos comunitários.
DC O facto de, em Portugal, a política ainda estar entregue ao sexo masculino pode explicar a forma como se faz política local?
FR Vou ser um bocado herege, mas quando as mulheres fazem política, fazem-na muito à maneira masculina. É evidente que seria uma lufada de ar fresco trazer novos actores, neste caso, de género feminino, passámos de 12 para 18 presidentes de câmara mulheres. Mas, se virmos a composição no Parlamento, o único partido que se aproxima de uma quota credível é o PS, que tem 44 deputadas em cento e tal, o resto é ridículo. Não ponho a tónica no género, penso que há um estilo masculino de se fazerem as coisas na política.
DC Hoje, como é quem os jovens escolhem um partido ou uma filiação, como fazem a sua opção?
FR A filiação num partido fazem-na por cálculo. Os jotas são pela procura de emprego, o que nos leva a prever a categoria dos políticos que estamos a criar. Escolher um partido, em termos de votação, não se faz muito pela ideologia. Neste momento a ideologia não é crível, estamos num período de transição, faz-se muito mais pela imagem consensual que os candidatos conseguem criar através dos media. É isso que interessa, criar uma imagem, é a mediatização da política, não os conteúdos políticos, mas sim apresentar o produto final bem elaborado. Infelizmente se calhar é isto que se passa em toda a Europa e EUA, é esse processo de mediatização, em que os conteúdos não são bem calculados, o que é mau, mas é uma mudança que temos de reconhecer e que se impôs, é mais um reforço da pessoalização da política.
DC É mais um passo para a cepa torta de que fala?
FR Ah..., não sei. Se esta pessoalização da política se inserir num processo de governança, toda a governança que conheço nos outros países europeus passa por um líder muito carismático. Veja-se as regiões francesas, a Catalunha, são tudo processos muito carismáticos, com afirmações regionais, que passam por um líder carismático que aprendeu a ser líder e a ser político. Isto é, abre a rede, e junta os actores, seja qual for a sua proveniência, sindicatos, trabalhadores, associações culturais, etc. |
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