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Perguntas Frequentes

 

1. Quais os principais problemas psicológicos que posso encontrar, quando estou a intervir com um refugiado?

Podem ser problemas pré-existentes à situação da migração (como: perturbação mental grave; depressão, abuso de álcool como consequência da exclusão social nos países de origem e destino); ou problemas que surgem durante o processo de migração (como: ter que lidar com uma situação de morte de algum dos elementos do grupo em que se deslocava – Luto; ter que experienciar situações de tortura, ou outro tipo de violência física e/ou psicológica; distresse; abuso de álcool; depressão e perturbações da ansiedade); mas, também podem existir problemas que surjam devido ao apoio humanitário que lhes está a ser prestado (como: ansiedade devido a falta de informação sobre medidas de apoio; dependência da ajuda nos países de destino; falta de acesso a serviços básicos; ou querer ser-lhes atribuído um país de destino que vai contra as expectativas que construíram).

 

2. Se não comunicamos na mesma língua, o processo de intervenção pode ficar prejudicado?

Sim. Uma das técnicas mais utilizadas na intervenção na crise junta a escuta ativa da história da pessoa e a normalização dos sintomas que por esta sejam referenciados. Assim, deverá ser feito um esforço para que sejam recolhidas informações sobre o estado das pessoas através do seu contacto direto ou com pessoas que falem uma língua comum, como o inglês ou francês, e que possam ter uma posição de tradutores informais. dada a especificidade da população, pode sugerir-se que dentro da própria comunidade migrante possam surgir pessoas que tenham profissões ligadas ao contacto e educação com o outro (como é o caso de professores, tradutores, líderes religiosos, etc.) possam ter uma posição de conselheiros, ou seja, podem ter que ouvir histórias de outros refugiados, utilizando técnicas simples de “escuta ativa” e transmitirem algumas informações mais elementares sobre como reagir perante essas situações de stresse. Deve ser verificado, antecipadamente, se as pessoas escolhidas para essa função, não estão elas próprias traumatizadas com a sua experiência do conflito que as fez sair do seu país de origem ou com as adversidades da viagem de migração. 

 

3. Por ser trabalhador humanitário estou mais exposto ao burnout, ao invés de estar mais protegido?

Os trabalhadores humanitários que lidam de perto com os migrantes têm de ter uma percepção realista sobre até onde pode ir ao seu apoio; pois, são mais as vezes em que terão de ajudar as pessoas a viver na incerteza; do que serão as vezes em que poderão ser parte activa na resolução das situações com que se confrontam.
Ao colocarem-se num patamar de extrema exigência, estão a dificultar o exercício da sua profissão e a exporem-se de forma vulnerável a situações de enorme complexidade de resolução.
O trabalhar com populações migrantes é, com toda a certeza, um importante desafio que os técnicos terão que saber conquistar. Questões tão relevantes como a necessidade de um assessment aos migrantes, especialmente durante o período de acolhimento mas também durante toda a sua estada, levanta questões como a falta de ferramentas de diagnóstico que culturalmente validadas e apropriadas.
Devendo considerar-se a equidade e a utilidade de testes de diagnóstico no contexto da linguagem, formação educacional, e as obviamente normas culturais. Importante ainda que os profissionais compreendam as implicações da realização de testes ou diagnóstico, muitas vezes percebidos pelos migrantes como momentos de preocupação com “rótulos de diagnósticos” num espaço cultural que não é o seu.

 

4. Quais os sinais e sintomas que posso encontrar em alguém que se confrontou com perante um evento traumático? 

Considere e tenha sempre presente os sinais e sintomas nos 4 grupos de reações seguidamente apresentados.

Nota: A presença destes mesmos sinais e sintomas deve ser clinicamente considerada, sendo importante reforçar que é usual, numa fase pós crise, considerar estas mesmas respostas como “normais” perante o processo de migração ou eventos, potencialmente traumáticos, experienciados durante o percurso migratório ou no país de origem. 

 

Reações Emocionais 
  • Choque emocional
  • Tristeza
  • Ansiedade / Pânico
  • Culpa
  • Raiva
  • Medo
  • Desespero
  • Irritabilidade
  • Dificuldade em manifestar emoções
  • Sentimento de luto/pesar
  • Insegurança exacerbada 
Reações Cognitivas
  • Atenção dispersa
  • Dificuldade de concentração
  • Dificuldade de tomada de decisão
  • Baixa autoeficácia
  • Descrença
  • Negação
  • Alteração da memória
  • Confusão
  • Distorção
  • Pensamentos intrusivos
  • Preocupação
  • Dissociação 
Reações Físicas
  • Variações excessivas da tensão arterial
  • Taquicardia
  • Dificuldade respiratória
  • Fadiga
  • Insónia
  • Hiperalerta
  • Queixas somáticas
  • Náuseas
  • Sede
  • Alteração do apetite
  • Arrepios e suores
  • Vulnerabilidade acrescida a adoecer 
Reações Comportamentais
  • Luta ou fuga
  • “Congelado ou imobilizado”
  • Obediência automática
  • Alienação
  • Abandono de atividades
  • Desconfiança
  • Problemas nas relações com os outros
  • Conflito
  • Agitação
  • Externalização de sentimento de vulnerabilidade
  • Sentimento de rejeição 

in Manual de Apoio Psicossocial a Migrantes (2015) p. 31


5. Nas crianças e adolescentes, vou encontrar reações diferentes em idades diferentes?

 

  • 0-2 Anos - Comportamento irritável, chora muito, mostrando apego ou passividade.
  • 2-6 Anos - Muitas vezes sentem-se impotentes, com medo da separação, estão em negação relativamente ao evento crítico; tornam-se mudos e evitam companheiros e adultos: isolam-se.
  • 6-10 Anos - Manifestam culpa, sentimentos de fracasso e raiva; têm fantasias de brincar como salvador e estão intensamente preocupados com os detalhes do evento crítico.
  • 11-18 Anos - As respostas assemelham-se às reações dos adultos: irritação, rejeição de regras e comportamento agressivo; medo, depressão, comportamentos de risco e podem tentar suicídio.

 

in Manual de Apoio Psicossocial a Migrantes (2015) p.32 

 

6. Considerando as diferenças culturais, há alguns detalhes a que tenha de tomar atenção e que, usualmente, não estaria sensibilizada?

Sim, como por exemplo: Vestuário (tem de considerar o impacto à dignidade e aos hábitos culturais da comunidade com quem está a intervir);  Linguagem (qual a língua que é falada comummente, bem como a forma de cumprimentar as pessoas); Género, idade e poder (perceber, previamente, naquela comunidade em concreto, quem é a “cabeça do casal”, se as mulheres só podem ser abordadas por mulher,…); Toques e comportamentos (saber se é usual tocar nas pessoas e qual o espaço reservado ao contacto social; saber se pode tocar em que partes do corpo – as mãos, os ombros,…. Inclusive é importante saber que comportamento especiais são tidos para com os idosos, as crianças, as mulheres ou outros públicos com características diferenciadas); Crenças e religião (quais os diferentes grupos étnicos e religiosos que têm influência naquele grupo com que está a intervir; que crenças ou práticas são importantes para as pessoas afectadas; como é que a comunidade pode entender ou explicar o que aconteceu).

 

7. Como posso gerir o meu próprio stresse?

 

  • Falar sobre as experiências vividas
  • Sempre que possível, evitar stresses acrescidos 
  • Manter-se atento a perigos adicionais
  • Relativizar situações stressantes contextualizando-as numa perspetiva mais ampla
  • Evitar isolar-se, tentando arranjar tempo para relaxar e para realizar atividades de que gosta
  • Procurar manter as rotinas existentes
  • Definir metas e traçar um plano para as concretizar
  • Disponibilizar-se para ajudar os outros 

 

8. O que posso fazer para ajudar os meus pares?

 

  • Estar disponível - Se for solicitado para prestar suporte, tentar estar disponível. Apesar de nem todos quererem falar, as pessoas que passaram por uma experiência stressante geralmente gostam de saber que alguém está lá para eles. Estar disponível, sem ser intrusivo.
  • Gerir a situação e os recursos disponíveis - Se necessário, ajudar a certificar-se de que a pessoa está segura, protegida; confirmar a existência de privacidade e que tem acesso à ajuda de que necessita, por exemplo, um médico se estiver doente.
  • Providenciar informação - Proporcionar à pessoa informações precisas e reais – por forma a ajudar a colocar a situação em perspectiva, dum modo mais objectivo e controlável.
  • Ajudar a pessoa a estabelecer controlo pessoal  - Respeitar a capacidade da pessoa para tomar decisões e gerir a situação. Ouvir e apoiar na tomada de decisões. Permitir que a pessoa expresse sentimentos, sem julgamento.
  • Encorajar - Algumas pessoas sentem-se culpadas ou têm perda de auto-estima durante situações stressantes. Encorajar a pessoa a ter uma visão mais positiva, ao ajudar a encontrar explicações objetivas e pensamentos alternativos.
  • Manter a confidencialidade - A confidencialidade é uma pedra angular de todo o apoio dos pares – revelando-se essencial para a integridade de todo o processo. Não compartilhar a história do seu colega com os outros ou fornecer detalhes sobre eles para terceiros.
  • Providenciar follow-up - Pode ser adequado disponibilizar-se para fazer follow-up à pessoa que está a ajudar, através de um telefonema ou de uma conversa, em presença. Ser discreto e não-intrusivo no follow-up. Não avançar com quaisquer promessas para se manter em contacto.

 

Formulário de Perguntas