International Seminar
Art, Architecture and African (In)Visibilities in Portugal
June 15, 2026, 9h30-18h00
Auditorium B3, Torre B (Av. Berna), NOVA FCSH (Lisbon)
Abstracts and Bio notes
Antonieta Reis Leite
CES-UC
(In)Visibilidades africanas no tecido urbano de Angra, Ponta Delgada e Horta
O tema da presença africana nos Açores, desde o seu povoamento, tem sido pouco explorado historiograficamente. As fontes pouco expressivas relegaram o tema para um lugar quase invisível, mais ainda se observado no particular do contributo desta comunidade para a arte e arquitetura. Nesta apresentação analisar-se-ão essas (in)visibilidades nos espaços urbanos do arquipélago, sobretudo a partir de duas fontes principais, ambas das últimas décadas do século XVI – as Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso e do retrato de Angra por Linschoten.
Antonieta Reis Leite é investigadora auxiliar no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, onde integra a linha temática A Europa e o Sul Global: Património em diálogo. Integra, como vice-diretora, a direção do CES. É também professora auxiliar convidada no dARQ Universidade de Coimbra. Licenciou-se em arquitetura pela Universidade de Coimbra (Portugal) em 2000 e em 2005 obteve um Diploma de Estudos Avançados em história da arte pela Universidade Pablo de Olavide (Espanha), onde concluiu o curso de História da Arte e Arquitetura na Ibero América. Doutorou-se em 2012 pela Universidade de Coimbra com investigação sobre a história do ambiente construído do arquipélago dos Açores na sua relação com o processo de povoamento das ilhas descobertas despovoadas no séc. XV. Tem trabalhado sobre o papel da arquitetura e do urbanismo no processo de colonização europeia de ilhas e costas marítimas. O seu trabalho é informado por fontes históricas locais e coloniais e enfatiza a importância de uma abordagem interdisciplinar, relacionando a história da arquitetura e a história urbana com os estudos do património. É autora de dois livros, artigos científicos e capítulos de livros. Participa em projetos de pesquisa financiados na sua área de especialização. É membro da equipa do projeto Making Portugal.
Cláudia Pato de Carvalho
CES-UC
Ciência cidadã como metodologia participativa em contextos de educação formal e não-formal
Esta apresentação centra-se nas metodologias participativas associadas à ciência cidadã em contextos educativos, a partir de três experiências de investigação-ação em contextos sociais e educativos: o projeto piloto do GT Ciência Cidadã e Educação do CES no Agrupamento de escolas Coimbra Centro, o projeto ATHENE (PT Inovação Social) e o Centro Comunitário de Coimbra (Programa Proinfância, Fundação la caixa/BPI)
Cláudia Pato de Carvalho é investigadora no Centro de Estudos Sociais, desenvolve projetos de investigação nas áreas da participação comunitária, mapeamento cultural, co-criação comunitária, intervenção urbana, ciência cidadã e inovação social. É professora auxiliar convidada da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra onde leciona na Licenciatura e Mestrado em Sociologia
Coordenou academicamente o projeto REDE ARTÉRIA, uma parceria com a companhia de teatro O Teatrão e o CES. O REDE ARTÉRIA (2017-2021) foi um projeto de investigação-ação, que através de um processo de mapeamento cultural participativo contribuiu para a criação de projetos de intervenção artística em oito cidades da Região Centro. Co-coordena presentemente o projeto ATHENE: ciência cidadã como metodologia para o desenvolvimento de competências em crianças e jovens e coordena o projeto Incubadora Social de Investigação e Inovação ISII, que acompanha e capacita projetos de inovação social que ajudem a resolver problemas sociais dos territórios, tornando clara a interseção entre investigação, prática pedagógica e inovação social. É membro da equipa do projeto Making Portugal».
Giuseppina Raggi
IHA-NOVAFCSH-IN2PAST
Vitória de Jesus, mulher negra escravizada, e a fundação de igrejas e capelas em Portugal
A história de Vitória de Jesus questiona a narrativa sobre o passado artístico e arquitetónico de Portugal na época moderna. Graças à sua devoção ao Menino Deus, fundou, angariou financiamentos e mandou construir a igreja e o recolhimento do Menino Deus, em Barcelos. Vitória atuou para além da agência, pois protagonizou cada etapa do processo, relacionando-se diretamente com as autoridades eclesiásticas, bem como com as instituições municipais, as confrarias de Barcelos e os seus próprios donos. Mobilizou os mais diversos estratos sociais e, provavelmente, teve acesso aos ambientes da corte de Lisboa. A trajetória de Vitória de Jesus terminou em 1735, quando ainda não tinha concluído o processo de alforria que lhe teria permitido dirigir o recolhimento feminino por si fundado, junto da igreja consagrada em 1733.
A comunicação apresentará a vida de Vitória de Jesus, propondo uma inversão crítica no que diz respeito às dinâmicas de patrocínio e mecenato artístico e arquitetónico por parte de pessoas escravizadas, libertas e livres em Portugal durante a época moderna. A par da história de Vitória de Jesus, serão analisadas e comparadas as notícias relativas a José, homem negro escravizado que fundou uma capela, e a mais conhecida história de Simõa Godinho, rica mulher são-tomense e fundadora da capela do Espírito Santo na antiga igreja da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Giuseppina Raggi é professora auxiliar de história da arte no Departamento de História da Arte da FCSHNOVA, investigadora integrada do IHA-NOVAFSCH_IN2PAST e investigadora colaboradora do CES-UC. Doutorada em História da Arte pela Universidade de Lisboa e pela Università degli Studi di Bologna (2005), especializou-se na pintura de tetos em perspetiva (pintura de quadratura) e nos intercâmbios artísticos entre Itália, Portugal e Brasil durante a época moderna (séculos XVII e XVIII). Atualmente, o seu trabalho explora as circulações artísticas em contextos europeus, atlânticos e globais, com particular atenção ao papel das mulheres na arquitetura e no teatro de ópera, bem como ao mecenato e à agência de pessoas africanas ou afrodescendentes na arte e arquitetura da época moderna. Autora do livro O projeto de D. João V. Lisboa occidental, Mafra e o urbanismo cenográfico de Filippo Juvarra (2021), publicou recentemente o capítulo “The church of Our Lady of the Rosary of Black People in Salvador (Brazil), and the enslaved painter António Telles at Olinda,” in Stephen John Campbell and Stephanie Porras (eds.), The Routledge Companion to the Global Renaissance, New York: Routledge, 2024, 624-639. É investigadora responsável do projeto exploratório Making Portugal (2025-2026), financiado pela FCT.
Hugo Ribeiro da Silva
CITCEM-FLUP
Fazer rir para existir: galhofas, trovas e agência de um escravo negro na Lisboa seiscentista
Esta comunicação centra-se na análise das práticas performativas de Francisco, negro escravizado que viveu na Lisboa do séc. XVII e que fazia da comédia informal o seu principal meio de subsistência e de afirmação social. As suas actuações - "galhofas" em procissões e igrejas, trovas, performances em contextos tão diversos como casas particulares e jantares diplomáticos - constituíam um repertório diferenciado e adaptado ao contexto, o que lhe permitia circular por espaços e redes sociais muito além do que a sua condição de escravo formalmente lhe permitiria. Argumenta-se que esta performance não era entretenimento marginal, mas uma táctica quotidiana de construção identitária: a comunidade que o rodeava reconhecia-o por uma alcunha feminina, atestando uma identidade social pública que excedia e contrariava a "morte social" inerente à condição de escravizado.
Hugo Ribeiro da Silva concluiu o Doutoramento em História e Civilização em 2010 no Instituto Universitário Europeu (Florença, Itália). Tem uma licenciatura em História (FLUP, 2001), um mestrado em Estudos Locais e Regionais (FLUP, 2005) e um mestrado em Humanidades Digitais (University College London, 2023). Os seus interesses de investigação são: História Social e Cultural da Época Moderna e Intercâmbios culturais no Atlântico Sul. Participou em vários projectos colectivos, como "Bahia 16-19: Salvador da Bahia: American, European and African forging of a colonial capital city", financiado pelo FP7-Marie Curie Actions People International Research Staff Exchange Scheme" (IRSES). Foi coordenador científico do projeto "O Atlântico dos outros: África, Bahia, Portugal e um oceano partilhado (sécs. XVII-XIX)", financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Foi Marie Curie Fellow no King's College London (2017-2019) e Lecturer em Estudos Lusófonos na mesma universidade (2019-21). Desde 2021 é Professor Auxiliar na FLUP e investigador no CITCEM. É membro da equipa do projeto Making Portugal.
Iskrena Yordanova
CESEM-FCSH Nova e Divino Sospiro-CEMSP
A devoção a Nossa Senhora da Atalaia no séc. XVIII: contexto cultural e pormenores musicais.
A devoção a Nossa Senhora da Atalaia e os círios realizados entre Lisboa e o santuário, localizado na atual área do Montijo, representam uma das principais tradições religiosas do século XVIII. As comunidades afrodescendentes estabelecidas no centro da cidade, participavam ativamente nesta devoção, dando um contributo fundamental para os processos de criação musical. Nos dias de festa, no santuário de Nossa Senhora de Atalaia executavam-se ladainhas e “músicas harmoniosas”, enquanto, no arraial, predominavam danças e músicas instrumentais de origem popular. Nos documentos da contabilidade, os gastos com a animação musical aparecem geralmente associados a grupos musicais designados como “os pretos dos timbales”, “os pretos da música” ou “os pretos da charamela”. Estes animavam a festa e a viagem de barco que atravessava o Tejo. O pagamento reconhecido pelo seu trabalho como músicos representava a despesa mais elevada da romagem.
Partindo da conhecida gravura “Peditório de Nossa Senhora da Atalaia”, realizada pelo viajante inglês A. P. D. G. em finais do século XVIII, a comunicação focará alguns aspetos sociais e musicais da dança do lundum, sublinhando o sucesso alcançado em todas as camadas da sociedade lisboeta, como, por exemplo, nas “assembleias de Lisboa” da segunda metade do século. Os bailarinos profissionais dos teatros dançavam também o lundum. É o caso da famosa bailarina francesa Mademoiselle Monroi. O Lundum da Monroi tornou-se mote para inesgotáveis variações para cravo e pianoforte, demonstrando o sucesso e o reconhecimento alcançados por esta dança e música criadas e promovidas pela população negra da cidade de Lisboa.
Iskrena Yordanova é violinista e musicóloga. Desde 1996 integra os primeiros violinos da OSP–Teatro Nacional do São Carlos, dedicando-se igualmente à prática historicamente informada com instrumentos originais. Desde 2004 é concertino e membro-fundador da orquestra barroca Divino Sospiro. Com este ensemble se apresenta regularmente em concertos em Espanha, França, Polónia, Finlândia, Bulgária, Itália, Malta, Japão. Gravou CD’s para Decca, Nichion, Dynamic, Arcana, Pan Classics, Glossa. Doutorada em musicologia pela Universidade de Évora, é investigadora integrada do CESEM-UNL. Desde 2014 é diretora científica do Divino Sospiro–CEMSP. Organizou 14 colóquios internacionais no Palácio de Queluz, no Museu do Teatro e na Biblioteca da Ajuda. Desenvolveu projetos de recuperação do património musical do séc. XVIII, publicados em edições críticas pelo IISM (Roma). É editora da série Cadernos de Queluz da Hollitzer Verlag (Viena). Publicou capítulos de livros para Olschki, Turchini, Artemide. Desde 2023 leciona no mestrado AReMus – Artistic Research in Music no Conservatório S. Cecília (Roma). É membro da equipa do projeto Making Portugal.
Joana Frutuoso
FL-UC
Por detrás de toponímias e representações: uma viagem pelo vale do Mondego
com Giuseppina Raggi e Rui Lobo
O vale do Mondego partilha com o vale do Sado características geográficas, económicas e socioculturais. Contudo, ao contrário do que sucede no vale do Sado, os traços da presença, do trabalho e da agência das populações africanas e afrodescendentes nos campos artístico e arquitetónico permanecem ainda pouco estudados. Faltam investigações abrangentes sobre a composição social da população e sobre as condições de vida das pessoas escravizadas nas grandes propriedades, como, por exemplo, nas terras pertencentes ao Mosteiro de Santa Cruz.
Tal como o vale do Sado, o vale do Mondego foi destinado ao cultivo do arroz, atividade desenvolvida, na época moderna, também por pessoas de origem africana. Algumas toponímias, bem como representações de figuras negras esculpidas ou entalhadas em igrejas de Coimbra e ao longo do vale, constituem, por enquanto, frágeis indícios da sua presença. Outro sinal pode encontrar-se no valioso acervo de vilancicos do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, entre os quais se contam numerosos “vilancicos de negro”.
Embora atualmente ofuscado, o impacto social, artístico e económico de africanos e afrodescendentes na região do Mondego é indiretamente testemunhado pelo túmulo de Diogo de Azambuja, na igreja de Nossa Senhora dos Anjos em Montemor-o-Velho. A representação esculpida de africanos a trabalharem o ouro, na Costa da Mina, remete para a relevância das tradições artísticas, culturais e económicas de matriz africana, veiculadas graças à presença dessas pessoas não só no vale do Mondego, mas também no conjunto do território português.
Joana Frutuoso é licenciada em História da Arte (2025) e mestranda em História da Arte e Património na Universidade de Coimbra. No verão de 2025, colaborou com o projeto Making Portugal através do programa de Estágios de Verão da Universidade de Coimbra.
Margarida Calafate Ribeiro
CES-UC
Sombras e sobras contemporâneas de um longo percurso africano português - uma leitura de Por Debaixo da Nossa Pele, de Joaquim Arena.
Joaquim Arena é um autor pioneiro do que podemos chamar literatura portuguesa afro-descendente. Desde o início dos anos 2000, a sua observação e interrogação política, social e racial desta realidade transfigura-se na sua literatura trazendo para a cena do texto ambientes, personagens e espaços pouco comuns até então na literatura escrita em português. A obra Por Debaixo da nossa Pele - Uma Viagem em análise nesta comunicação é um exemplo maior desta transfiguração.
Margarida Calafate Ribeiro é doutorada em Estudos Portugueses pelo King's College, Universidade de Londres; é investigadora-coordenadora no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, titular da Cátedra Eduardo Lourenço, Instituto Camões/Universidade de Bolonha, com Roberto Vecchi, investigadora convidada na Faculdade de Línguas Modernas e Medievais da Universidade de Oxford e membro do grupo de investigação CRILUS, da Universidade de Paris-Nanterre. É membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. É professora e co-coordenadora do curso de doutoramento Pós-Colonialismo e Cidadania Global (CES/ FEUC). Coordenou 14 projetos de investigação e em 2015 foi-lhe atribuída uma Consolidator Grant do Conselho Europeu de Investigação (ERC) com o projeto de investigação 'MEMOIRS Children of Empires and European Postmemories'. A sua investigação centra-se na memória e pós-memória do colonialismo e do império, identidades, pós-colonialismo, mulheres e guerra, e representações literárias e artísticas.
É autora de Uma história de regressos: império, guerra colonial e pós-colonialismo e África no feminino: mulheres portuguesas na Guerra Colonial e co-editora de vários livros publicados com investigadores europeus, africanos e americanos.
Os seus livros mais recentes são Des-cobrir a Europa - filhos de impérios e pós-memórias europeias (2022), escrito com Fátima da Cruz Rodrigues e está também disponível em francês Enfants d'empires coloniaux et postmémoires européennes (Presses Universitaires de Nanterre); Eduardo Lourenço - uma geopolítica do pensamento (2023), escrito com Roberto Vecchi; e o livro de autora Europa Transfigurada – Heranças e Restituição (2025). É membro da equipa do projeto Making Portugal.
Mário Carneiro
Escola Secundária de Amora
Educação para a Cidadania: do currículo formativo à cultura participativa
Nesta apresentação dar-se-á nota do modo como foi desenvolvida a Educação para a Cidadania na Escola Secundária de Amora, a nível conceptual e metodológico, acentuando-se a relação dinâmica entre a dimensão formativa do currículo e o desenvolvimento de uma cultura de participação cidadã. Neste contexto, referiremos a Educação para a Cidadania e as virtualidades do seu desdobramento no currículo formal e no currículo não formal. A nível do currículo formal salientaremos as disciplinas de Cidadania e Desenvolvimento e de Cidadania e Arte e a metodologia do trabalho de projeto, nas suas três dimensões: cognitiva, axiológica e práxica. A nível do currículo não formal, teremos em atenção o Orçamento Participativo, os Fóruns de Turma e a parceria com o Projeto Cultural de Escola.
Mário Carneiro é licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e mestre em Filosofia pela Universidade de Lisboa. É membro do Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta, Consultor Científico da Cátedra Fidelino de Figueiredo da Universidade do Estado da Bahia e Conselheiro Editorial do Instituto Politécnico Gregório Semedo do Lubango.
Lecionou Filosofia na Escola Secundária de Amora [ESA], tendo desempenhado múltiplas cargos de coordenação, entre os quais o de Coordenador da Estratégia de Educação para a Cidadania (2018-2024). Nesta função, coordenou anualmente todo trabalho de equipa de professores e alunos realizado, em metodologia de trabalho de projeto, na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento pelas 50 turmas da ESA, assim como diferentes projetos do currículo não formal: Orçamento Participativo das Escolas, Fóruns de Turma, Fóruns de Delegados de Turma, entre outros. Aposentou-se em 2025.
Continua a ser formador de professores de Filosofia e de professores de Cidadania e Desenvolvimento, continua também a desenvolver investigação científica e a publicar estudos sobre o pensamento filosófico lusófono. É consultor do projeto Making Portugal.
Paulo Almeida Fernandes
IHA-NOVAFCSH-IN2PAST
Acerca da despersonalização no registo histórico-artístico: a propósito de uma pintura lisboeta de Nossa Senhora do Rosário
Resumo:
Desconhecida do grande público e recolhida hoje num pretenso núcleo museológico anexo à igreja de Santa Catarina de Lisboa, a pintura seiscentista alusiva a Nossa Senhora do Rosário permanece um enigma a várias dimensões. Não se sabe por que razão foi executada, nem para que espaço religioso, nem a data em que tal ocorreu. Mas o mais inquietante é desconhecer-se o artista responsável, bem como o casal de origem africana representado aos pés de Nossa Senhora, certamente os promotores da obra. Este é o ponto de partida para uma comunicação interrogante acerca de silêncios, omissões, esquecimentos, vazios e eliminações de identidades na História da Arte portuguesa em torno de representações de pessoas de origem africana.
Paulo Almeida Fernandes é doutorado em História da Arte pela Universidade de Coimbra, mestre em Arte, Património e Restauro e licenciado em História, variante de História da Arte, ambos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É membro integrado do Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Universidade Nova de Lisboa) e colaborador do Instituto de Estudos Medievais (Universidade Nova de Lisboa). É ainda membro do Comité Internacional de Especialistas do Caminho de Santiago (órgão consultivo da Xunta da Galiza).
Desempenha funções de coordenação do serviço de Inventário e Investigação do Museu de Lisboa - EGEAC, no âmbito das quais tem estado envolvido em várias exposições e edições sobre a história da cidade. Entre as várias exposições que comissariou salientam-se Convivência(s). Lisboa Plural 1147-1910 (2019) e Crónicas de uma Lisboa desconhecida (2025). Dos mais de 200 títulos publicados, destacam-se Testemunhos da Escravatura. A memória africana no Museu de Lisboa (2017), ou «In front of our eyes; yet under the carpet. Reinterpreting the heritage of African slave communities in Lisbon», Collecting with(in) the city (Amesterdão, 2026). É membro da equipa do projeto Making Portugal.
Rosa Botequilha
Escola Secundária de Amora
Entre Cidadania e Criatividade: a implementação das Artes, na Escola Secundária de Amora, a partir do projeto Making Portugal
A Escola Secundária de Amora constitui um verdadeiro laboratório cultural. Enraizada no território, a ESA conta com uma população estudantil de cerca de 1200 alunas e alunos, do ensino básico ao secundário. Fortemente heterogénea, a escola representa de forma exemplar a diversidade social que caracteriza os municípios da Margem Sul do Tejo. Afrodescendentes de segunda geração com nacionalidade portuguesa, africanos nascidos em Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, brasileiros, portugueses e, mais recentemente, jovens oriundos de vários países asiáticos convivem no espaço escolar, cruzando experiências, contextos culturais de pertença e expectativas em relação ao futuro, também graças às atividades promovidas no âmbito da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento e do Projeto Cultural da Escola.
A implementação do WP3 do projeto Making Portugal inseriu-se nestas dinâmicas, proporcionando a três turmas e às suas respetivas professoras o desafio de se confrontarem com a pintura O Chafariz d’El-Rei. Através do diálogo, da abordagem histórico-artística e da reflexão sobre o passado esclavagista e os seus impactos na contemporaneidade, as alunas e os alunos foram estimulados a relacionar-se criativamente com as figuras e as situações representadas na pintura, dando origem a formas artísticas de interpretação do passado, de intervenção crítica no presente e de imaginação de futuros possíveis.
Rosa Botequilha é professora de História e de Cidadania e Desenvolvimento. Leciona na Escola Secundária de Amora desde o ano letivo de 1992-93 onde exerceu diversos cargos de gestão, sendo docente do quadro de nomeação definitiva. Licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, é pós-graduada em Museologia Social, pela Universidade Lusófona. Desde 2020, é coordenadora do Projeto Cultural de Escola, que integra o Plano Nacional das Artes.
Encontrou na cidade do Seixal, na freguesia da Amora, no rio Judeu e em muitos locais do concelho, um território com apreço pelo seu património, bem estimado e bem preservado. Tem desenvolvido, com os estudantes da Escola Secundária de Amora, diversos projetos que visam, não só valorizar as artes e o património, como, principalmente, capacitar os jovens, dando-lhes autonomia e promovendo a sua afirmação. É consultora do projeto Making Portugal.
Rui Lobo
CES-UC
A Ermida de São Mamede do Sádão: ensaio de reconstituição arquitetónica e de enquadramento social e territorial.
Seguindo pela estrada de terra batida que acompanha a margem esquerda do rio Sado, entre Santa Margarida e Rio de Moinhos, deparamo-nos – por entre concentração pontual de arvoredo – com o altivo campanário, e as paredes parcialmente derrubadas, da antiga ermida de São Mamede do Sádão.
Ainda muito recentemente, a capela sofreu nova inundação excecional do rio (como outras ao longo da sua história) que fez tombar mais um pano de parede e parte de um muro anexo. Efetivamente, sabemos que a ermida sofreu várias reconstruções, na sequência de cheias anteriores, particularmente em 1557 e 1564. Foi reconstruída, pelo menos, mais uma vez, pois a ermida mencionada numa memória de 1758 não corresponde à que vem descrita na última “visitação” conhecida do século XVI.
As ruínas da ermida são o que resta de uma comunidade que aqui viveu e que chegou a ter, em finais de setecentos, mais de duzentas pessoas. Julga-se que seriam, em grande medida, descendentes de escravizados e escravizadas de origem africana, trazidos para cultivar os campos do vale do Sado desde os séculos XV e XVI, como propõem vários estudos. Segundo a lenda, São Mamede nasceu na prisão, de pais reclusos por professarem a fé cristã. Por outro lado, Nossa Senhora do Rosário, dedicação de um dos dois altares laterais da capela, foi muito venerada por comunidades de afrodescendentes, tanto em Portugal (em particular no Alentejo), como no Brasil.
Rui Lobo é Professor Associado no Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e investigador do Centro de Estudos Sociais-UC. Fez parte do primeiro grupo de arquitetos formados na Universidade de Coimbra, em 1994. Doutorou-se em 2010 com a tese "A Universidade na Cidade. Urbanismo e arquitetura universitários na Península Ibérica da idade média e da primeira idade moderna". Tem produzido investigação em teoria e história da arquitetura - em particular nos temas da arquitetura universitária, da arquitetura portuguesa e da arquitetura dos jesuítas. É autor de vários livros, capítulos de livros e artigos, publicados em Portugal e no estrangeiro. Foi Investigador Principal do projeto SANTACRUZ, sedeado no CES-UC e com financiamento competitivo da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia), entre 2018 e 2022. É Vice-Coordenador do Curso de Doutoramento em Arquitetura da FCTUC e membro do Conselho Editorial da revista Monumentos. É membro do projeto Making Portugal.
CONVIDADOS DA MESA-REDONDA
Joaquim Arena
Joaquim Arena nasceu em 1964, na ilha de São Vicente, Cabo Verde, filho de pai português e mãe cabo-verdiana. Aos seis anos foi viver para Lisboa, onde a família se instalou.
Licenciou-se em Direito e dedicou-se à música e ao jornalismo. No final dos anos noventa regressou a Cabo Verde, onde fundou o jornal O Cidadão, em São Vicente. Mais tarde é assessor cultural da Alliance Française local. Entre Portugal e Cabo Verde trabalhou como jornalista em vários meios de comunicação. De 2017 e 2021, Joaquim Arena foi conselheiro cultural do presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca.
É autor dos livros Um Farol no Deserto (2000, IPC), A Verdade de Chindo Luz (2006, Oficina do Livro) e Para Onde Voam as Tartarugas (2010, Caminho).
Várias outras das suas obras mais recentes têm recebido importantes prémios literários.
Assim, em 2016, o seu trabalho ensaístico Debaixo da Nossa Pele — Uma Viagem foi distinguido com a menção honrosa do Prémio Imprensa Nacional/Vasco Graça Moura, obra que se encontra publicada na coleção «Olhares» da Imprensa Nacional.
É autor do livro Siríaco e Mister Charles (2022, Quetzal), que venceu em 2023, na categoria de prosa, o Oceanos – Prémio de Literatura em Língua Portuguesa.
O livro O Sabor da Água da Chuva e Outras Memórias da Amiga Perfeita ganhou o Prémio Literário Arnaldo França, instituído pela Imprensa Nacional de Cabo Verde e de Portugal, para distinguir a promoção da língua portuguesa e do talento literário em Cabo Verde. O seu último livro, As mortes do meu pai, (2025, Quetzal) incide sobre a guerra civil em Portugal, na primeira metade do século XIX, e a participação de soldados negros na guerrilha absolutista.
As suas obras estão publicadas na China, nos Estados Unidos, em Espanha, no Brasil, na Itália e na Sérvia.
Jessemusse Cacinda
Jessemusse Cacinda é escritor moçambicano. É Licenciado em Filosofia pela Universidade Pedagógica - Delegação de Nampula, Mestre em Sociologia pela Universidade Eduardo Mondlane e Pós-graduado em Gestão de Projetos pelo Instituto Superior de Gestão, Administração e Educação de Maputo em Moçambique. Atualmente é Doutorando do Programa de Pós-colonialismos e Cidadania Global (Sociologia) na Universidade de Coimbra. É investigador do projeto “Pedagogias revolucionárias: História dos projetos de educação em Angola e Moçambique (1960-1980)” a decorrer no CES-UC e bolseiro FCT. É também co-fundador da editora de livros Ethale Publishing. É autor dos livros "Kwashala Blues" (novela, 2023) e "Made in Nampula ou jazz do oriente" (contos, 2026).
Ruben Zacarias
Ruben Zacarias é artista plástico moçambicano, nascido a 3 de junho de 1995. É formado em artes plásticas pela Bindarte e em fisioterapia pelo ISC-NAMPULA. Dramaturgo. Co-fundador da Galeria Papoila. Realizou as seguintes exposições individuais: 2012 - “Moçambique visto por mim”, ilha da Madeira; 2014- “Mulheres de Alto Molócuè”, Washington DC; 2017, “Herdeiros do Sol”, Casa de Cultura de Paredes; 2022 - “Silêncios Roxos e Outros diálogos”, Galeria Armazéns do Porto; 2023- “À espera de nenhum milagre”, Casa de Cultura de Paranhos, Porto; 2024- “Conexões”, Galeria Armazéns do Porto, Miguel Bombarda, “Gênesis”, Biblioteca Professor Machado Vilela, 2026, Vila Verde. Participou nas seguintes exposições colectivas: 2015 - “Trilhos”, Nacala-Porto, Moçambique; 2016 - “Crônicas Visuais”, Nampula-Moçambique; 2020 - “Contornos”, Quelimane Moçambique. 2024 - “Novos Territórios, Futuros Negros”, Coimbra. Participou na Bienal de arte contemporânea da Maia em 2025 e na exposição “Poemário Índico”, 2025 Mira Forum, Crepúsculo Moçambicano, 2026, Espaço Mira.

