PROJETO

Agência Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia

Período:  1 de abril de 2012 a 31 de agosto de 2015

 

Breve Descrição

A Guerra Colonial constitui um momento fundador da realidade sociopolítica do Portugal contemporâneo. A transição democrática encetada com o 25 de Abril está intimamente ligada ao conflito que entre 1961 e 1974 opôs as forças armadas portuguesas aos movimentos independentistas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Este foi um conflito com profundas consequências humanas pelas marcas deixadas nos combatentes dos diferentes lados da contenda, cujas vidas foram significativamente atravessadas pela experiência da guerra. Mas a Guerra Colonial repercute-se também nos longos conflitos que se seguiram nos países independentes, nomeadamente em Angola e em Moçambique. Esta conflitualidade é frequentemente descrita a partir de uma gramática de luta interna que tende a obscurecer o papel central que a Guerra Colonial assumiu enquanto parte de um conflito regional – a luta contra o alastramento das independências negras na África Austral - e parte de um conflito de âmbito global - aquilo que muitos consideram ter sido um “subsistema” da Guerra Fria na África Austral.

Após décadas de relativa omissão, vivemos hoje um momento em que a sociedade portuguesa parece cada vez mais disposta a falar da Guerra Colonial, suas consequências históricas, sociais e políticas, como se pode observar pela explosão da temática na literatura e no espaço mediático. Face a esse emergente espaço de revisitação, parece-nos importante contribuir com uma abordagem que, iluminando novas perspetivas sobre os contornos geopolíticos do conflito, se preste a um diálogo crítico entre a experiência da Guerra Colonial e a realidade social contemporânea portuguesa. Será essa uma forma de fomentar o debate acerca da Guerra Colonial, valorizando epistemologias subalternizadas: as experiências dos que empenharam as suas vidas no esforço de guerra, ao mesmo tempo que se concertam luzes sobre a cabal superação das formas de conflitualidade que lhe sobreviveram.

O tema do “subsistema” da Guerra Fria na África Austral, em torno da aliança entre a Rodésia e a África do Sul, aliados do Portugal colonial na região, tem conhecido pouco interesse. Conforme asseveram investigações recentes desenvolvidas por Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, bem como de Amélia Souto, essa aliança definiu como objetivo “erradicar o terrorismo da África Austral”. O mesmo é dizer, serviu para criar uma ação concertada que permitisse limitar a ação dos movimentos independentistas, de modo a preservar um mapa de soberania do colonialismo na África Austral. A aliança terá sido iniciada com o apoio que Portugal e a África do Sul deram à promoção da independência branca pela Rodésia, em 1964, tendo sido adensada até ao final da guerra no sentido de uma estratégia militar comum sob o comando da África do Sul.