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Editorial

Uma nova urbanidade: cidade, cultura, património, sustentabilidade

Construímos a 3ª modernidade sob diversas ameaças, mas também com um entusiasmante conjunto de desafios e oportunidades. No seio destes as cidades assumem uma importância crucial e global nas questões do desenvolvimento, e a cultura está a ser chamada à definição de novos paradigmas da urbanidade, veiculando a sua transição para modos de vida que comportem mais qualidade sem comprometer o futuro.

Em 2008 a maioria da população mundial passou a ser urbana e estima-se que em 2030 esse indicador atinja os 60%. Serão as cidades com mais de meio milhão de habitantes a crescer, com o número e a população das megacidades (> 10 milhões de hab.) a superar-se. Ocupando menos de 3% da superfície dos continentes, as aglomerações urbanas determinam cerca de 70% da economia, mas também do consumo de energia, do lixo e das emissões de gases com efeito de estufa. A violência urbana mata mais que as guerras convencionais, que cada vez mais decorrem em teatros urbanos. Em suma, nenhum dos desafios globais se resolverá sem uma atuação integrada que gere outra urbanidade.

Nesse contexto a UN acaba de aprovar na Habitat III em Quito (17-20 out.) a New Urban Agenda, alinhada com os 17 Sustainable Development Goals (2015-2030), em particular com o 11 Sustainable Cities and Communities, cujos tópicos principais são, além da sustentabilidade, a segurança, a inclusão e a resiliência. Pela primeira vez neste tipo de documentos, a cultura e, em particular, o património cultural, são considerados ferramentas essenciais para se atingirem as metas globais. Cultura que, nesse concerto de tomadas de posição ao mais alto nível, há cerca de um ano foi consagrada como o 4º pilar da sustentabilidade em interação com os da economia, sociedade e ambiente.

A conjugação de tudo isso resultou no lançamento em 2015 pela UNESCO da Culture for sustainable urban development iniciative, destinada a informar a New Urban Agenda. No seu seio a elaboração do UNESCO Global Report on Culture for Sustainable Urban Development, também apresentado na Habitat III, foi um esforço inovador. Nele teve o CES uma dupla participação através de um texto sobre as políticas locais e de um dos relatórios regionais que o informaram, designadamente com os casos de estudo dos Países de Língua Portuguesa, que será publicado autonomamente para debate e enriquecimento.

Este “movimento” global tem vindo a conformar novas perspetivas sobre o património urbano, impondo-se-lhe a integração da mudança que é intrínseca à cidade. O património urbano é passado ativo e por isso deve desenvolver-se a partir do seu próprio potencial e dinâmica culturais, assim gerando desenvolvimento harmónico e sustentável. Sendo-lhe artificial o conservacionismo, é na cultura que o património urbano deve procurar âncoras que impeçam a descaracterização, a perda de integridade e autenticidade. Para que na desejada mudança não se percam os valores essenciais que do passado têm de informar o futuro.

Walter Rossa

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