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PROJETO

 

 

Por que razão se reveste a questão dos colaboradores de tamanha importância hoje em dia? A discussão sobre a história recente de Moçambique abre novos caminhos para o debate das ‘comissões de verdade’ a para o seu papel para a constituição e consolidação da cidadania.

Para quem se interessa pelo tema do desenvolvimento, Moçambique é geralmente percebido como um caso de sucesso democrático, tanto em termos de desenvolvimento político quanto económico. Na verdade, ao longo da sua curta história, o Estado moçambicano tem prosseguido uma política de construção da nação, o que inclui a adoção política de uma história oficial baseada em um conjunto de memórias públicas (e intensamente publicitadas) sobre o seu passado colonial recente e distante. O Estado moçambicano pretende assim eliminar ou tornar invisível a diversidade de memórias geradas por complexas interações sociais entre colonizadores e colonizados durante o longo período de vigência do colonialismo português. Tal silêncio nunca foi plenamente realizado, muito menos no que diz respeito aos anos mais recentes.

Este projeto visa revelar e discutir as múltiplas tensões políticas e antagonismos que permeiam a sociedade moçambicana em diferentes níveis, especialmente visíveis na política de pertença. Estas tensões revelam como uma história nacional é, na melhor das hipóteses, parte integrante de um processo de construção da nação. Como tal, as tensões e confrontos refletem lutas e debates mais ou menos intensos sobre a política da história e da memória. Neste sentido, o foco da investigação aqui divulgada recairá sobre um grupo bastante grande e extremamente heterogéneo de pessoas reconhecidas, a partir da independência, como "colaboradores" com o colonialismo. Isto é, o projeto procurará desvelar o silêncio sobre o processo dos chamados 'comprometidos'. Olhando para as histórias de vida e trajetórias de diversos comprometidos, e comparando-as com materiais de arquivos e documentos de informação (jornais, discursos oficiais, filmes, etc.), o projeto visa desenvolver uma cartografia mais densa e complexa das memórias e traumas sociais desta transição particular em Moçambique. Em suma, este projeto visa contribuir para ampliar os debates teóricos e metodológicos da história e da memória, e para o desenvolvimento de análises mais sofisticadas sobre os processos de (re)construção da identidade em Moçambique na contemporaneidade.