Oficina de Poesia
 
 


Oficina de Poesia nºs 13

Data de Publicação: 2010

 
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Editorial

“E assim se acaba de vez com o grande mistério da poesia!...”, exclamava, entre o atónito e o desiludido, um jovem actor a colaborar, tal como eu, no “Curso de Iniciação às Artes para Crianças” de Belgais (cf. Oficina de Poesia, #2, 2003), quando ouvia, há uns anos atrás, crianças de 6-10 anos a ler os poemas que vinham de escrever. Respondi-lhe, com Pessoa, que “o único mistério é que não há mistério nenhum!”

Este número especial da nossa revista é inteiramente dedicado à divulgação da poesia escrita no âmbito de várias sessões/oficinas em escolas e bibliotecas públicas por todo o país. Poemas escritos por crianças (do infantário, à básica e à secundária), adolescentes (do Curso de Verão “Ciência Viva”, “Poemacto”, coordenado no âmbito do CES) e jovens adultos (alguns em contexto de Centro Educativo), além de participantes em cursos EFA (Educação e Formação para Adultos). Extraordinariamente – porque a revista só publica inéditos – apresentamos também poemas já publicados num pequeno caderno, Cartilha Trabalho Escravo Hoje No Brasil. Coletânea de paródias, textos dissertivos, poesias e desenhos sobre trabalho escravo (Xinguara, Pará, 2007), onde se coligiram poemas de crianças a viver na pobreza extrema que resulta de um sistema hoje considerado extinto, a escravatura (o antropólogo brasileiro António Alves de Almeida foi um dos organizadores deste pequeno caderno e foi ele mesmo que, enquanto desenvolvia a sua investigação no CES, tomou conhecimento do trabalho realizado pela Oficina e trouxe até nós os poemas destas crianças).

Quais as razões que nos levam a desenvolver estas acções de formação na área da escrita e a divulgar aqui os seus resultados? Em primeiro lugar, porque acreditamos, de facto, que Pessoa tinha razão: não há aqui nenhum mistério! Há uma intimidade muito especial das crianças com a arte: porque ainda não incorporaram/se subjugaram à norma – e digo isto a partir da mais completa ignorância de todos os estudos cientificamente desenvolvidos sobre estas matérias; digo isto apenas porque a minha experiência, ao longo de já quase 10 anos, mo comprovou à evidência.

Comecemos com o infantário: dir-me-ão que crianças de 3 anos não sabem escrever, nem ler. Certamente! Mas não sabem elas correr atrás de cubos com versos escritos nas faces? Não sabem justapor esses cubos? Não sabem levar ao adulto “aquele objecto palavra” que é copiado? E aprender, assim, a construir com palavras e sons? (que difícil é, tantas vezes, fazer perceber a um adulto essa “objectividade”, essa materialidade da palavra – sempre tão aleatoriamente subjectiva e transdiscursiva!). E depois é vê-los, embevecidos, a ouvir a magia da voz que lhes lê o que construíram!

Repetir esse jogo, essa aprendizagem, essa criação é, como Aristóteles nos ensinou, um ritual de participação: é ser aceite, entrar na comunidade, na coisa pública (e ninguém falou aqui de comunicação). Assim, entramos na linguagem e nela nos movemos: na coisa pública. E na coisa pública se trabalhou: em Águeda (Aguada de Cima, Fermentelos), Aljustrel, Almeirim, Alvaiázere, Coimbra, Constância, Ferreira do Alentejo, Melgaço, Mértola, Montemor-o-Novo, Olhão, Santarém, Setúbal, Silves (S. Bartolomeu de Messines, Algoz). O poder de interferir na coisa pública e de ter voz (com a ventriloquia da voz pública ou contra ela) traz o prazer e assim, como todos/as sabemos, prazer e poder funcionam em uníssono.

Dessa radicalidade do político saem todas estas vozes aqui presentes: dos mais pequeninos, que começam a aprender, a entrar no “jogo da construção” das representações; dos mais crescidos, que começam a “recordar” que, de facto, vivemos num/com um jogo de representações; dos temporariamente afastados da ordem pública que, esperamos, possam tomar consciência da permanente tensão – logo na linguagem – entre a ordem e a desordem, aprendendo a gerir essa tensão quando regressarem ao uso da sua liberdade em espaço público; dos que se preparam para fazer uma escolha da linguagem do saber que mais se lhes adequa e que, mesmo que a linguagem das artes e as humanidades não seja o seu futuro, possam perceber que, diga o que disser a voz pública do senso-comum, essa linguagem nunca está (ou estará) fora do seu futuro (porque é o primeiro “fazer” de si); e, finalmente, dos que vivem subjugados e com fome, e que se alimentam na esperança e na liberdade que é o espaço da palavra, porque o único mistério é que não há nenhum mistério na capacidade humana de imaginar outros mundos – e assim aprendam a lutar por eles, reinventando a tribo, para que esta possa sobreviver.

Ensinar a arte da escrita – a poética, a literatura – é ensinar a cidadania.

Graça Capinha