BLEND <br>Desejo, Miscigenação e Violência: o presente e o passado da Guerra Colonial Portuguesa

BLEND
Desejo, Miscigenação e Violência: o presente e o passado da Guerra Colonial Portuguesa

Período
1 de junho de 2016 a 31 de maio de 2019
Duração
36 meses
Financiamento
Fundação para a Ciência e Tecnologia
Resumo

O presente projeto irá analisar os legados das relações sexuais e amorosas estabelecidas nos vários palcos da Guerra Colonial (GC ­ 1961­1974) entre soldados portugueses e mulheres africanas. Para tal, iremos desenvolver três eixos de pesquisa em que o nexo entre guerra/mestiçagem emerge de forma significativa. No I eixo, analisaremos as memórias e histórias de vida dos ex­combatentes portugueses que, contra décadas de silenciamentos e traumas, pouco a pouco se dispõem a relatar aquilo que de pessoal trouxeram da guerra. No II, pesquisaremos as mulheres africanas que se cruzaram sexual ou romanticamente com os soldados portugueses; analisaremos que marcas guardam da violência da guerra, da violência sexual, da violência do amor e dos profundos estigmas que sobre elas recaíram após às independências africanas. No III eixo iremos recolher histórias de vida dos muitos filhos e filhas de soldados que ficaram em África com as suas mães, descendentes de pais desconhecidos ou distantes, mestiços e mestiças.

A GC encontra­-se há muito envolta num espesso manto de silêncios. Propomo­nos alargar o debate sobre a GC a uma vertente pouco explorada, de modo a cumprir dois objetivos. Em 1º lugar, mostrar o impacto duradouro desta guerra, a nível biográfico, não apenas nos ex­combatentes mas também nas populações civis africanas, em particular nas mulheres e nos mestiços filhos da GC. Em 2º lugar, situar o fenómeno da miscigenação e a figura do ‘mulato' dentro da senda imperial e, em particular, da narrativa do colonialismo português.

A questão do ‘cruzamento racial’ — mormente entre colonizadores e colonizadas, dentro de um nexo patriarcal­racialista — emergiu em diferentes momentos como uma questão política relevante na legitimação da moderna empresa colonial.

Inicialmente, grosso modo até aos anos 1940, o povoamento português das colónias africanas procurava libertar-­se do estigma da ‘cafrealização’, que consistia na adoção de costumes e práticas dos povos locais e no estabelecimento de relações – eróticas e familiares – com as mulheres africanas. Na década de 1950, como forma de fazer frente à crescente contestação internacional à vigência dos regimes coloniais, as teorias de Gilberto Freyre sobre o lusotropicalismo foram mobilizadas para a ideologia do regime. Seguindo o credo lusotropicalista, tratava-­se de afirmar a vocação tropical de Portugal que se caracterizava por uma predisposição para sociedades multiculturais e inter­raciais. Não obstante, as relações mistas no espaço colonial português, cada vez menos frequentes, nunca deixaram de estar sujeitas à desqualificação social, à clandestinidade, à violência sexual ou ao espectro da prostituição.

Com o eclodir da Guerra Colonial/Guerra de Libertação no início da década de 1960, estabeleceu-­se um contexto singular, precisamente aquele cujos legados nos propomos a analisar. A mobilização de quase 1 milhão de soldados da metrópole, permanecendo entre 2 a 3 anos nas frentes de guerra, fomentou um importante fenómeno de relações sexuais e amorosas entre os soldados coloniais e as mulheres negras. Estas relações, mais espontâneas ou mais ‘institucionalizadas’, como parte de uma logística ‘clandestina’ comum a todas as guerras, caracterizaram­-se por uma temporalidade circunscrita pelos ritmos das comissões de serviço e das mobilizações para a frente.

A equipa realizará duas fases de trabalho de campo (TC), uma em Portugal (TC I) e outra em Angola e Moçambique (TC II). A exclusão da Guiné­Bissau justifica­-se pela existência de trabalhos anteriores (Gomes 2013) e por critérios de viabilidade. Como metodologias privilegiadas serão usadas as histórias de vida e as entrevistas semiestruturadas, em estreita relação com a análise de arquivo institucional relevante, que já se encontra mapeado. Os entrevistados nos diferentes terrenos serão recrutados inicialmente a partir dos contactos já sinalizados pela equipa, a partir de projetos de investigação anteriores, a partir daí será aplicada a técnica ‘efeito bola de neve’. Será efetuado um total de 70 entrevistas: em Portugal serão feitas 20 entrevistas a ex­-combatentes e, tanto em Angola como em Moçambique, serão realizadas 15 entrevistas a mulheres e 10 a ‘filhos da GC’. Além de um significativo trabalho sobre a Guerra colonial/Guerra de Libertação e seus estilhaços nas sociedades que dela emergiram, a equipa de investigação do projeto detém um conhecimento aturado dos diferentes terrenos onde realizará trabalho empírico.

Estas hipóteses serão testadas empiricamente através da utilização de um conjunto de metodologias (sobretudo de tipo qualitativo) distribuídas pelas várias tarefas e estudos de caso: análise documental e de bases de dados; focus group; histórias de vida; observação direta; entrevistas semi­estruturadas; entrevistas em profundidade.

Resultados

O projeto permitirá valorizar o impacto biográfico e humano que resulta da GC, muito para além dos intervenientes e histórias normalmente considerados nas análises deste conflito. Pela abordagem inovadora que será desenvolvida, os resultados do projeto constituem uma mais-valia para alargar a compreensão do colonialismo português, da mestiçagem em contexto colonial e da relação entre guerra e a memória social das populações duradouramente marcadas pelo seu impacto.

Palavras-Chave
colonialismo e pós-colonialismo, raça e miscigenação, memória social, género/gerações/guerra colonial portuguesa