CES em Cena
 
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CES em CENA 51

Atualmente atravessamos um período de colapso ambiental e climático. Depois de séculos de relação extrativista com a Terra, caracterizada pelo paradigma de desenvolvimento moderno dos países do Norte Global, assistimos à proliferação de catástrofes que já não podemos caracterizar enquanto “naturais” – furacões, cheias, incêndios, o aumento da temperatura global e fenómenos climáticos extremos são uma expressão da grande aceleração capitalista.

Para além dos recentes epifenómenos da crise planetária em Moçambique, Austrália, Portugal, Califórnia, a densidade sociopolítica de um climate out of joint evoca preocupações com justiça climática, intergeracional, social e entre o Norte e Sul Global. O conceito de Antropoceno, naturalizado enquanto expressão de um tempo geológico sob o domínio da humanidade, desvaloriza desigualdades sociais e geopolíticas e apresenta as sociedades humanas como um coletivo igualmente responsável pelas emissões de CO2.

As ciências sociais têm um papel fundamental na análise da crise climática. As abordagens associadas ao marxismo, ecossocialismo e à teoria crítica permitem analisar de que forma os fluxos capitalistas recorrem ao colapso socioambiental para se reinventarem. Dispositivos como o capitalismo verde e cultural, mercados de carbono, a sustentabilidade ou a descarbonização da economia literalmente injetam valor – através de fundos estruturais, esquemas de financiamento e mecanismos para a “transição” – em novos dispositivos – “ambientalidades” - que articulam a governamentalidade humana e ambiental.

Os estudos de ciência e tecnologia (ECT) e a teoria pós-humanista favorecem metodologias híbridas que visam atender às associações estabelecidas entre humanos e não-humanos na emergência ambiental e climática, colocando em causa heurísticas modernas e dualistas que reproduzem o excepcionalismo humano. A viragem ontológica nos ECT tem sido fundamental no desenvolvimento de metodologias e práticas que visam criar fenómenos de co-constituição e comunicação entre humanos e não-humanos (orgânicos e não-orgânicos) com recurso às artes, aos sentidos, à tecnologia e a novas materialidades.

O CES tem-se destacado pelo desenvolvimento de abordagens críticas e contra-hegemónicas. A crise climática tem um impacto catastrófico nas sociedades humanas e não-humanas e exige formas de investigação participativa e engajada que permitam, como afirmou o monge Zen Thich Nhat Hanh, “escutar os sons da terra a chorar”.  O paradigma das ciências sociais tem de ser descolonizado, estabelecendo uma transição de modelos humanistas, hegemónicos e instrumentais para formas de investigação-ação que mobilizem os coletivos terrestres na constituição de constelações sociais e subjetivas não-dualistas.  Sob o espectro do Apocalipse climático e ambiental, as ciências sociais têm um papel crucial na resistência à Necropolítica extrativista através da proliferação de novas ontologias que promovam formas de justiça cognitiva, cosmopolítica e inter-espécies.

António Carvalho

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