Colóquio

Figurações de Amílcar Cabral – memória, política e cultura

22 de fevereiro de 2019, 09h30

Sala 1, CES | Alta

Notas biográficas / Resumos das comunicações

Roberto Vecchi

Experiência, filosofia da práxis e metafísica da resistência: Amilcar Cabral e a construção de uma filosofia africana

Uma apreciação atual do pensamento de Cabral permite abordar, através de um outro arsenal e a elaboração de uma teoria crítica, os problemas – e as aporias- da filosofia africana. A contribuição teórica do líder nacionalista encontra-se disseminada em vários campos. Antes de tudo pela experiência histórica não só porque ela pode implicar uma teoria do ato emancipatório. Mas também pela inscrição dentro de uma ampla matriz marxista (Marx, Labriola, Gramsci) do pensamento de Cabral no âmbito de uma filosofia da práxis. O caso de estudo contemplado nestas considerações é o seminário Alguns tipos de resistência de 1969 onde se configura uma metafisica do ato resistencial que vai substanciar, com uma considerável potência crítica e tornando a filosofia uma efetiva arma, os pressupostos de uma hermenêutica alternativa para África, a partir do contexto histórico específico das lutas pela independência.   

Roberto Vecchi é professor catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira e de História das culturas de língua portuguesa na Universidade de Bolonha. É coordenador da Cátedra Eduardo Lourenço em Bolonha e Honorary Professor (2018-2021) of Lusophone Studies na Universidade de Nottingham. É presidente desde 2014 da AIL, a Associação Internacional de Lusitanistas., Publicou em 2017 La letteratura portoghese. I testi e le idee (com Vincenzo Russo).

 

Vincenzo Russo

Para além da solidariedade internacionalista: pensar com Cabral

A partir de uma vasta e complexa rede de solidariedade internacionalista às lutas de libertação dos movimentos africanos contra o colonialismo português, foi na década de 60 que a esquerda italiana produziu um enorme esforço de elaboração teórica da crítica terceiro-mundista. Um case study paradigmático é o debate que os intelectuais do Centro Franz Fanon de Milão como Giovanni Pirelli alimentaram na tentativa de identificar as lutas anticolonialistas pela independência do Terceiro Mundo com a luta do proletariado europeu. O pensamento de Cabral (célebre a sua intervenção no Seminário de Treviglio em 1964) ajuda a iluminar certas antinomias teóricas, a reconfigurar a questão da solidariedade ocidental para além dos paternalismos (neo)coloniais, das «cumplicidades financeiras».  

Vincenzo Russo Professor Associado de Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade de Milão. Entre os seus volumes: Tenebre BiancheImmaginari coloniali fin-de-siècle (2008); Suspeita do Avesso. Barroco e Neo-Barroco na Poesia Portuguesa Contemporânea, 2008; La Letteratura Portoghese. I testi e le idee, (com R. Vecchi) (2017). Publicou edições italianas de autores portugueses, brasileiros e africanos (João Paulo Borges Coelho, Bocage, Fernando Pessoa, Eduardo Lourenço, António Ramos Rosa, Eça de Queirós, Boaventura de Sousa Santos, Pepetela, Vergílio Ferreira, Lima Barreto). Atualmente é Secretário Geral-Tesoureiro da AIL (Associação Internacional de Lusitanistas).

 

Rui Lopes

A Libertação da Guiné e Cabo Verde como luta internacional e transnacional

A luta pela libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde foi travada não só na costa ocidental africana, mas também no plano internacional (apoio diplomático, económico e militar de múltiplos países a ambos os lados em conflito), bem como a nível transnacional (cooperação e circulação de ideias e pessoas entre grupos não-estatais). Permite-nos, portanto, refletir sobre o papel de amplas dinâmicas regionais, continentais e globais, quer na formação de sujeitos políticos nacionais, quer na projeção das suas causas além-fronteiras. Esta comunicação abordará duas tendências evidenciadas por pesquisas recentes sobre a articulação da luta do PAIGC com espaços tão distantes como o Grande Salão do Povo em Pequim ou as barricadas de Paris, envolvendo agentes tão díspares como os serviços secretos checoslovacos, movimentos afro-americanos e comités da ONU. Por um lado, discutirá o contributo destes estudos para um ‘descentramento’ da história da Guerra Fria, apresentando a competição geopolítica simultaneamente como um obstáculo omnipresente e um enquadramento onde atores supostamente periféricos forjaram um percurso autónomo. Por outro lado, analisará este caso enquanto exemplo particularmente frutífero de um movimento Sul-Norte, no qual discursos e ações oriundas do chamado Terceiro Mundo foram apropriadas no seio das maiores potências ocidentais.

Rui Lopes é investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, tendo-se doutorado em História Internacional na London School of Economics and Political Science. É autor do livro West Germany and the Portuguese Dictatorship, 1968-1974: Between Cold War and Colonialism (Palgrave Macmillan 2014), bem como de vários artigos sobre a Guerra Fria e a dimensão internacional do Estado Novo, sendo ainda coordenador do projeto Amílcar Cabral, da História Política às Políticas da Memória. É membro do conselho editorial da revista Práticas da História: Journal on Theory, Historiography and Uses of the Past.

 

José Neves

Descolonizar o marxismo – o caso de Amílcar Cabral

A partir da história da globalização de uma ideologia política de proveniência europeia, o marxismo, esta comunicação pretende contribuir para os debates atuais acerca da possibilidade de descolonização do conhecimento e da teoria política. Para este efeito, toma-se como fonte de estudo - mas também enquanto apoio teórico a esse mesmo estudo - o discurso proferido por Amílcar Cabral em 1966, em Havana, no quadro da Tricontinental, e o seu texto "Alguns tipos de resistência", resultado de palestras destinadas a quados do PAIGC, em 1968. Em discussão estará, por um lado, a crítica cabraliana à filosofia marxista da história, que nos oferece pistas importantes para a elaboração de uma concepção não-progressista da história, por outro, a persistência da sensibilidade científica de Cabral, devedora do que poderíamos chamar uma epistemologia do norte. 

José Neves é historiador. É professor auxiliar no Departamento de História da NOVA-FCSH e investigador integado do Instituto de História Contemporânea. É director da revista Práticas da História - Journal on Theory, Historiography and Uses of the Past. Entre as suas publicações, destaca-se o livro Comunismo e Nacionalismo em Portugal - Política, Cultura e História no Século XX.

 

Mesa 2

Julião Soares Sousa

Como escrever a biografia de Amílcar Cabral na contemporaneidade?  Reflexões em torno de um estudo de caso

Na nossa comunicação examinaremos os desafios que se colocam à elaboração da biografia de Amílcar Cabral, procurando ter em linha de conta diferentes perspetivas analíticas, diferentes enfoques e, fundamentalmente, trazer à discussão, a forma, os contextos e as questões metodológicas que se colocam no presente, bem como lançar um olhar sobre a tendência futura.

Julião Soares Sousa é guineense (Guiné-Bissau). Licenciou-se em História pela Universidade de Coimbra em 1991. Mestre em História Moderna (1997) e Doutor em História Contemporânea (2008) pela mesma Universidade. É Investigador Integrado do Grupo História e Memória do CEIS20-UC e Investigador-Colaborador do IHC/FCSH-UNL na área de História Política Comparada – Regimes, Transições, Colonialismo, Colonialismo e Memória.

 

Leonor Pires Martins

Obituários: as pequenas biografias de Amílcar Cabral

Na sua aceção corrente, o obituário é um registo que noticia a morte de uma pessoa, normalmente acompanhado por um relato conciso dos aspetos mais significativos que marcaram a sua existência. Os obituários podem, assim, ser apreendidos como pequenas biografias que apontam para o que merece ser lembrado no trajeto biográfico em apreço. Em última instância, pode dizer-se que os obituários fixam representações biográficas, oferecendo a ilusão de que, com a morte, aquela vida se fechou definitivamente. Baseada numa investigação em curso, a comunicação propõe-se a analisar diversos obituários de Amílcar Cabral, cuja morte em 1973 teve impacto na imprensa internacional. As circunstâncias em que esta ocorreu fizeram com que fosse a própria morte do dirigente anticolonialista - mais que a vida - a centrar a atenção mediática. Ainda assim, o extenso noticiário sobre o assassinato do então líder do PAIGC proporcionou uma produção profusa de resenhas biográficas que, independentemente do seu rigor factual, justificam uma maior atenção historiográfica ao papel destas na constituição de uma "figura histórica".

Leonor Pires Martins é licenciada em Antropologia (1997, ISCTE-IUL) e mestre em Literatura Comparada (FL-UL, 2002). Atualmente, é Bolseira de Investigação do Projeto I&D "Amílcar Cabral, da História Política às Políticas da Memória" (PTDC/EPH-HIS/6964/2014) e doutoranda em História, encontrando-se a desenvolver uma metabiografia de Amílcar Cabral (Amílcar Cabral: uma biografia das biografias. A construção literária de um sujeito histórico). É autora do livro Um Império de Papel. Imagens do colonialismo português na imprensa periódica ilustrada (1875-1940), Lisboa: Edições 70, 2012.

 

Sumaila Jaló

Amílcar Cabral – um exemplo por realizar

Olhando para a vida e luta do homem que foi um combatente exemplar para a libertação dos povos africanos da dominação colonial, particularmente dos povos da Guiné e Cabo-Verde, percebemos que, se por um lado temos Cabo-Verde empenhado a cumprir o “Programa Maior” do PAIGC, o progresso, por outro, temos a Guiné aquém de pelo menos começar “a pensar pela sua própria cabeça”. É preciso revisitar Cabral sempre!

Sumaila Jaló, guineense, professor do secundário no Liceu Dr. Agostinho Neto, Bissau.  Activista, porta-voz do Movimento dos Cidadãos Conscientes e Inconformados (MCCI); crítico literário e estudante de mestrado em História Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

 

Sílvia Roque

Amílcar Cabral: memórias transgeracionais

Esta comunicação pretende analisar itinerários de rememoração de Amílcar Cabral, percorridos por jovens guineenses e descendentes de guineenses, na Guiné-Bissau e em Portugal, assim como os significados que lhe são atribuídos. Se, a partir das ações dos Estados, governos e partidos, de alguma forma associados à figura de Amílcar Cabral, são frequentes as evocações e tensões em torno da sua memória, estas encontram-se também frequentemente confinadas a uma reprodução cerimonial ou à reivindicação de uma legitimidade histórica e não correspondem necessariamente a uma real transmissão inter-geracional do seu percurso e do seu pensamento. Defende-se que o aparente desconhecimento de Amílcar Cabral entre as gerações mais recentes não significa que a memória de A. Cabral esteja ausente do quotidiano das mesmas. Procura-se, assim, por um lado, problematizar a transmissão e a produção de memórias através de mecanismos não-formais e de expressões dispersas e fragmentadas; e, por outro lado, discutir os significados atribuídos ao passado a partir de olhares que procuram dar sentido ao presente e ao futuro num espaço transnacional.

Sílvia Roque é Investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Professora Auxiliar Convidada do Mestrado em Estudos Africanos no ISCTE-IUL. Doutorada em Relações Internacionais, com Mestrado em Estudos Africanos, desenvolve investigação no domínio das Relações Internacionais e dos Estudos para a Paz desde 2005. Tem dedicado grande parte da sua investigação a dinâmicas de violência em contextos de pós-guerra e, em particular, na Guiné-Bissau, da qual resultou o livro Pós-guerra? Percursos de violência nas margens das Relações Internacionais. Coimbra: Almedina, 2016. Atualmente desenvolve um projeto de pós-doutoramento sobre percursos de jovens guineenses e descendentes de guineenses na Europa. É investigadora associada dos projetos CROME - Memórias cruzadas, políticas do silêncio: as guerras coloniais e de libertação em tempos pós-coloniais e MEMOIRS - Filhos de Império e Pós-Memórias Europeias, levados a cabo no CES-UC.

 

Mesa 3

Rui Cidra

Cabral, música popular e o debate da crioulidade cabo-verdiana

A presente comunicação aborda o modo como jovens músicos vivendo na cidade da Praia e em Lisboa nos anos volvendo a Independência Nacional de Cabo Verde (1975) interpretaram o pensamento político de Cabral na criação de novas estéticas de música popular inspiradas em práticas expressivas da Ilha de Santiago com histórias de marginalidade social durante o período colonial tardio, em especial o funaná. Procura descrever como esses processos criativos traduziram inflexões em noções socialmente partilhadas de crioulidade cabo-verdiana e reclamaram a representação de experiências de cabo-verdianidade historicamente silenciadas.

Rui Cidra é investigador no Instituto de Etnomusicologia, Centro de Estudos em Música e Dança (FCSH-UNL), onde desenvolve um programa de pós-doutoramento relacionando as estéticas da música popular de Cabo Verde e poéticas da nação e diáspora. Na sua tese de doutoramento “Música, poder e diáspora: uma etnografia e história entre Santiago, Cabo Verde e Portugal” (2011), abordou o género de música e dança funaná e a experiência da crioulidade e masculinidade cabo-verdiana santiaguense entre os momentos colonial e póscolonial.

 

Inês Rodrigues

Os legados de Amílcar Cabral e da luta de libertação em Cabo Verde. Os símbolos nacionais como espaço de contestação

Amílcar Cabral dizia que ninguém luta apenas por um hino e por uma bandeira, mas estes signos são alvo de combate, sobretudo combates pela memória. Neste sentido, a minha proposta é que pensemos a substituição dos símbolos nacionais em Cabo Verde, ocorrida nos anos 1990, como o resultado da disputa entre dois sistemas mnemónicos diferentes, que, emergindo em distintos contextos socioeconómicos e político-partidários, representam dois paradigmas de rememoração da luta de libertação e, sequentemente, dois projetos de nação diferenciados. Para o demonstrar, sugiro ler estes sets de memória através da seleção de alguns símbolos nacionais que me parecem particularmente representativos da questão que apresento – a bandeira, o hino, o calendário festivo e a moeda de Cabo Verde.  A análise do respetivo processo de mudança e da discussão que ele gerou ao longo do tempo entre diferentes atores sociais sustentar-se-á num conjunto de materiais, desde discursos políticos e debates parlamentares, a legislação, recortes de imprensa e entrevistas.

Inês Nascimento Rodrigues é investigadora em pós-doutoramento no CES, onde integra a equipa do projeto CROME - Memórias Cruzadas, Políticas do Silêncio: as guerras coloniais e de libertação em tempos pós-coloniais. Tem diversas publicações, das quais se destaca o mais recente livro Espectros de Batepá. Memórias e narrativas do «Massacre de 1953» em São Tomé e Príncipe (Afrontamento, 2018). Os seus atuais interesses de investigação centram-se nos estudos da memória e nos debates sobre a representação e comemoração das guerras coloniais e de libertação.

 

Miguel Cardina

Memorial Amílcar Cabral: representações, apropriações, disputas

Estátuas, monumentos e memoriais são corpos políticos através dos quais se intersectam tensões entre memória, espaço e poder. No caso dos líderes das lutas de libertação africanas, o seu estatuto de “heróis nacionais” – ele próprio sujeito a gradações valorativas e transformações diacrónicas em função dos diferentes países – confere-lhes uma inquestionável centralidade no imaginário social e nas políticas de memória produzidas pelos Estados. No caso de Amílcar Cabral, a representação e evocação da sua figura presta-se a ressignificações que colocam no cerne do debate, não apenas a sua dimensão histórica enquanto líder político, mas sobretudo as trajetórias que a Guiné-Bissau e Cabo Verde seguiram a partir de 1974/75. Nesta intervenção pretendo examinar a forma como o Memorial Amílcar Cabral, inaugurado em 2000 na Cidade da Praia, em Cabo Verde, tem uma história (e uma pré-história) que permitem pôr em discussão o lugar da rutura anticolonial na construção de Cabo Verde pós-colonial e observar criticamente dinâmicas de reconhecimento e apropriação diferenciada da figura de Cabral.

Miguel Cardina é investigador do Centro de Estudos Sociais. É coordenador do projeto de investigação CROME - Memórias Cruzadas, Políticas do Silêncio: as guerras coloniais e de libertação em tempos pós-coloniais, financiado pelo Conselho Europeu para a Investigação. É autor ou co-autor de vários livros, capítulos e artigos sobre colonialismo, anticolonialismo e guerra colonial; história das ideologias políticas nas décadas de 1960 e 1970; e dinâmicas entre história e memória.

 

Redy W. Lima

“Cabralistas wake up”: rap, jovens e (re)construção de uma cultura de resistência

Em julho de 2011, num comício do candidato apoiado pelo partido que suporta o governo às presidenciais, José Maria Neves, então Primeiro-Ministro e Presidente do PAICV, afirmou que Cabral tinha sido assassinado pelos dirigentes do PAIGC. Como resposta, alguns rappers que estiveram na base da organização da primeira Marxa Cabral, em 2010, reagiram com a música “Cabalistas Wake Up”. Assumindo-se como os continuadores de Cabral, esta nova geração juvenil tem, nos últimos anos, radicalizado o discurso e através da ênfase colocada na necessidade de união entre os bairros, rappers, movimentos sociais e gangues de rua, tem-se posicionado contra aqueles a que chamam de burguesia do poder. Esta comunicação pretende, a partir da narrativa contra-colonial da música “Cabralista Wake Up”, analisar a forma como uma parte dos jovens e rappers cabo-verdianos tem recontextualizado o discurso pan-africanista de Amílcar Cabral no atual contexto político e social cabo-verdiano.  

Redy Wilson Lima é formado em Sociologia pela ULHT e FCSH-UNL, e doutorando em Estudos Urbanos na FCSH-UNL e ISCTE-IUL. É investigador não doutorado do CICS.NOVA.FCSH (Portugal), investigador colaborador do CEsA/CSG/ISEG-ULisboa, co-fundador do coletivo Nhanha Bongolon (Cabo Verde) e professor assistente convidado no Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais (Cabo Verde) e na Universidade Lusófona (Cabo Verde).

 

Pedro Pires

Conferência Final

Pedro Verona Rodrigues Pires (Pedro Pires) nasceu na ilha cabo-verdiana do Fogo, no concelho de São Filipe, a 29 de abril de 1934. Frequentou o ensino básico e secundário em São Filipe e na Praia, concluindo o ensino secundário em São Vicente.

A sua adolescência foi marcada por graves secas e por fomes agudas que assolaram as ilhas do arquipélago de Cabo Verde, durante a década 40 do século passado.

Em 1956, saiu de Cabo Verde para fazer os estudos universitários em Portugal. No entanto, não pode concluir os seus estudos por ter sido mobilizado para o serviço militar obrigatório, que cumpriu na Força Aérea Portuguesa.

Em 1961, decidiu abandonar clandestinamente Portugal para abraçar a causa da independência cabo-verdiana, como membro do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Para além de outras missões, trabalhou na mobilização de apoios ao PAIGC, no seio das comunidades cabo-verdianas residentes no Senegal e em França. Após preparação específica, integrou posteriormente as fileiras das forças armadas de libertação. Foi ascendendo na hierarquia do PAIGC até integrar o seu órgão supremo de direção político-militar: o Conselho de Guerra.

Após o triunfo da Revolução dos Cravos em Portugal, de que resultou a queda do fascismo e a mudança do regime político daquele país, a agenda da descolonização, então congelada, ganhou uma nova dinâmica, na qual Pedro Pires se destacou como negociador exímio e se afirmou como um dos líderes do movimento emancipador.

Viria verificar-se, em 1980, com o golpe de estado ocorrido na Guiné-Bissau, uma cisão no partido original, em que ala cabo-verdiana decidiu prosseguir autonomamente a sua caminhada política e assumir os seus desígnios nacionais, fundando o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV).

Em 1975, Pedro Pires foi indigitado para Primeiro-Ministro de Cabo Verde pelo recém-eleito Parlamento cabo-verdiano. Esteve três mandatos na liderança do Governo cabo-verdiano. Dirigiu e animou o movimento de reforma do regime político então instituído e de abertura ao pluripartidarismo, nos finais da década 80.

Em 1991, perdeu, à frente do PAICV, as primeiras eleições multipartidárias, para Carlos Veiga do Partido do Movimento Democrático da direita. Manteve-se na oposição e conservou-se como deputado do PAICV.

Em 2001, Pedro Pires foi eleito Presidente da República de Cabo Verde. Em 2006, foi reeleito para um segundo mandato.

A 9 de Setembro de 2011, terminou os dois mandatos de Presidente da República. No mesmo ano foi laureado com o Prémio de Boa Governação em África pela Fundação Mo Ibraim.

Atualmente é Presidente da Fundação Amílcar Cabral e do Instituto Pedro Pires para Liderança que fundou em 2013. É membro das seguintes organizações: Africa Forum, West Africa Comission on Drugs of Koffi Annan Foundation, African Foundation for Governance and Leadership. Também é membro do júri do prémio Jose Marti da UNESCO, Cuba e do prémio Calouste Gulbenkian.