Teses Defendidas

Memórias Virtuais: Representações Digitais da Guerra Colonial

Verónica Ferreira

Data de Defesa
12 de Setembro de 2022
Programa de Doutoramento
Discursos: Cultura, História e Sociedade
Orientação
António Sousa Ribeiro e Miguel Cardina
Resumo
O estudo da memória pública e comum de eventos históricos foi-se desenvolvendo nas últimas décadas do século XX, particularmente dedicado ao estudo da memória de eventos traumáticos como o Holocausto. Em Portugal, esses estudos, de memórias consideradas traumáticas, têm dado os seus primeiros passos em temas como a ditadura do Estado Novo ou a memória do colonialismo português. Nesta investigação, em particular, interessou-me abordar a memória pública da Guerra Colonial - na qual o Estado português participou enquanto regime ditatorial e colonialista. A investigação da memória do Estado Novo e da Guerra Colonial até então não havia contemplado o novo espaço social que se constitui a partir dos novos meios de comunicação digitais - como a Internet - e, neste sentido, decidi encetar uma primeira investigação que colmatasse parte dessa lacuna.

Decidi, portanto, dedicar-me a iniciar o estudo da memória da Guerra Colonial na Internet, nomeadamente em três plataformas: 1) os blogues de antigos combatentes; 2) os verbetes dedicados ao conflito na Wikipédia lusófona; e 3) as páginas e grupos públicos de Facebook que abordem de alguma forma a memória do conflito. Pretendi compreender que semelhanças e que ruturas marcam este novo espaço mnemónico social. A investigação que desenvolvi nos últimos cinco anos teve como objetivo central compreender as dinâmicas de criação e produção de memórias e quais as narrativas históricas mais presentes nestas plataformas digitais. Assim, e em suma, encarei o meio digital enquanto espaço de (re)criação, divulgação e partilha de narrativas e representações sociais sobre a Guerra Colonial. A investigação pretendeu responder a duas grandes questões: 1) que narrativas são (re)construídas em meio digital sobre a Guerra Colonial; 2) de que forma (como) e em que medida (quanto) o meio digital molda as narrativas memoriais sobre a Guerra Colonial. Com efeito, pretendi, ao mesmo tempo, compreender quais as razões apontadas pelos produtores destes conteúdos para enunciar e divulgar esas narrativas através da Internet, e que tipo de relação se estabelece entre as narrativas digitais e as narrativas em circulação noutros meios de comunicação. Ao fazê-lo percebi que se vão formando, sobretudo entre utilizadores de blogues e páginas de Facebook, comunidades baseadas na partilha de experiências comuns. E, por fim, que relações mnemónicas digitais se estabelecem entre indivíduos dentro e fora de grupos de pertença (dimensão comunitária e dimensão individual), i.e., que relação têm as memórias produzidas em meio digital com as restantes representações sociais da guerra, ou seja, que relação têm as memórias em meio digital (os seus processos de produção e negociação) com as representações sociais dominantes sobre a Guerra Colonial e os consensos historiográficos existentes?

Para compreender o processo de produção e construção das memórias em meio digital foi importante ter em conta a interação entre meio digital e a construção de memórias individuais e coletivas de antigos combatentes fora das plataformas, situando-as num contexto histórico, económico e político mais amplo e influenciado por narrativas já presentes no meio social em que estes homens se movem. Concomitantemente, tive em conta a produção académica existente sobre a Guerra Colonial, a fim de colocar em perspetiva as narrativas exploradas em contexto virtual, explorando os silêncios e as ausências. Para tal, foi importante fazer um levantamento crítico da evolução da memória da Guerra Colonial nas várias plataformas digitais e analisar as representações da guerra e as narrativas memoriais presentes nos blogues e nas páginas coletivas/associativas de Facebook. A investigação teve ainda a colaboração de antigos combatentes que escrevem para o maior blogue de veteranos da Guerra Colonial em língua portuguesa - o blogue Luís Graça e Camaradas da Guiné - que aceitaram ser entrevistados tanto enquanto produtores de conteúdos digitais como enquanto antigos combatentes. O objetivo foi comparar as suas narrativas com as narrativas construídas fora do meio virtual, assim como indagar os produtores acerca das razões por si apontadas para a utilização deste meio como espaço de enunciação.

Palavras-chave: memórias digitais, Wikipédia, blogues, Facebook, Guerra Colonial, discursos