Teses Defendidas

The Ritual State: The Cultural Infrastructure of Political Authority in Myanmar

Amara Thiha

Data de Defesa
18 de Maio de 2026
Programa de Doutoramento
Democracia no Século XXI
Orientação
Teresa Almeida Cravo
Resumo
Esta tese contribui para o estudo da autoridade política ao cunhar e desenvolver o conceito original do estado ritual. O estado ritual é definido como um modo de formação política no qual a legitimidade é produzida e sustentada através da gestão da ordem cosmológica, de práticas ritualizadas e da transformação espacial. A tese aborda a questão central de como a autoridade política é construída, sustentada e contestada em contextos de governança autoritária e transições políticas. Situada nos debates sobre a autoridade política, a pesquisa baseia-se na teoria do ritual, nos estudos da religião e na teoria espacial para explicar como o estado ritual opera como uma forma distinta de governança autoritária, particularmente em cenários onde a legitimidade legal-racional formal permanece instável. Dentro desta investigação mais ampla, a tese examina como o estado ritual funciona como um mecanismo de autoridade política em contextos autoritários e como as suas fundações rituais e cosmológicas foram reconfiguradas em Myanmar, desde o período socialista até o rescaldo imediato do golpe de 2021. Argumenta-se que a legitimidade política dentro do estado ritual não é apenas um produto do desenho institucional, coerção ou ideologia, mas é materializada através de práticas culturalmente enraizadas que organizam o espaço, regulam os corpos e produzem a ordem moral. Apoiando-se numa compreensão da ritualização centrada na prática, o estudo conceptualiza o ritual como um modo estratégico de ação através do qual os atores políticos diferenciam o sagrado do profano, o centro da margem, e o legítimo do ilegítimo. Metodologicamente, a análise adota uma abordagem qualitativa interpretativa. Baseia-se num trabalho de campo prolongado conduzido entre 2021 e 2023, que incluiu entrevistas com monges, astrólogos, especialistas em rituais, intermediários políticos e atores ligados às forças armadas, juntamente com a observação participante e a análise documental de textos rituais e práticas religiosas associadas ao Estado. Empiricamente, a tese traça a mobilização do espaço ritualizado ao longo de quatro fases políticas: o período socialista tardio, o regime militar, a governança híbrida e o panorama pós-golpe de 2021. O estudo demonstra como sucessivos regimes empregaram a aquisição de mérito (merit-making) e a construção de pagodes para cultivar o reconhecimento e estabilizar o domínio. Documenta também como os atores da oposição se apropriaram destas práticas para desafiar as reivindicações dominantes, contribuindo para a fragmentação da autoridade ritual em formas descentralizadas de resistência espiritual na sequência do golpe de 2021.A tese contribui para os debates sobre o autoritarismo ao reconceptualizar a legitimidade como um processo materializado no espaço e sustentado através da participação rotinizada, em vez de uma crença interna. Embora fundamentada no contexto político e religioso de Myanmar, a pesquisa propõe um enquadramento analiticamente generalizável para examinar os mecanismos através dos quais os estados rituais efetivam, contestam e territorializam a autoridade política.

Palavras chave: Autoritarismo, Budismo, Democratização, Mianmar, Rituais